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LIVRO DE JACÓ - Expressões musicais do vaqueiro nordestino
APRESENTAÇÃO
Como o título já revela, o projeto “Livro de Jacó: expressões musicais do vaqueiro nordestino” refere-se a uma pesquisa etnomusicológica que teve como tema a música dos vaqueiros nordestinos. O objetivo central do projeto foi a coleta e transcrição musical (em forma de partitura) de aboios e toadas de tradição oral sertaneja, e a concomitante contextualização crítica, multifacetada, dos modelos e sentidos musicais encontrados. A música dos vaqueiros foi encarada como fruto ou ressonância expressiva da situação sócio-antropológica de seus partícipes, mas também como fermento criativo de signos culturais, um ressonador da experiência humana nas terras áridas do sertão. Foram coletadas e transcritas cerca de 40 toadas e aboios da região. As melodias e versos tradicionais da sub-região do Cariri e Araripe, entre os estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Piauí, foram privilegiados, pois esta localidade possui presença marcante de cantadores e aboiadores, além de ser o rincão geográfico do hoje “mítico” vaqueiro Raimundo Jacó. A maioria das melodias recolhidas no projeto pertencem à 1memória oral do Sertão; no entanto, toadas criadas por vaqueiros e aboiadores contemporâneos também foram transcritas, de forma a provar que a tradição continua viva, incorporando questões atuais em sua poética (principalmente no caso das toadas), ou sofrendo hibridizações culturais em seu caráter melódico e interpretativo.
O projeto aqui apresentado possui dois produtos finais:
1) Material para um livro (espécie de “songbook etnomusicológico”) contendo partituras transcritas de aboios e toadas (incluindo letras), textos de análise musical e poética, e contextualização histórica e cultural do fenômeno no nordeste brasileiro, com ênfase na sub-região sertaneja. Entrevistas transcritas e registros em audio também foram feitos; as gravações em campo estão armazenadas e disponibilizadas como parte da pesquisa.
2) Proposta criativa para o uso da técnica e estética musical dos aboios e toadas sertanejas em música contemporânea, principalmente na música de concerto e na experimental, mas também na popular (instrumental ou canção). O objetivo deste segundo produto intelectual do projeto é mostrar a cultura musical dos vaqueiros não como algo que reside em um tempo e espaço remotos, a ser preservado como folclore, mas como expressão ainda sujeita a transformações, ou seja, uma tradição enquanto transmissão e tradução. O próprio aboiar de vaqueiros contemporâneos possui nuances novas, e que também podem ser reveladas ao criador ou intérprete atual. Diferente da proposta de Mário Andrade, no entanto, não é nossa intenção a busca de um fermento telúrico que possa ser direcionado a uma estética erudita nacional, muito menos nacionalista; focamos nas possibilidades formais, técnicas e expressivas para um uso criativo, livre e consciente ao mesmo tempo, de elementos do aboio e da toada, encarando-os como potencial universalista. A partitura de um aboio escrito para orquestra de cordas está incluída no material da pesquisa, e serve como exemplo criativo das explorações estéticas das possibilidades do aboio.
O “Livro de Jacó” surge para combater a carência existente em relação ao conhecimento da expressividade musical do vaqueiro nordestino. Com a exceção de uma tese mais abrangente sobre o tema, publicada apenas em alemão pela pesquisadora Regine Allgayer-Kaufmann na década de 80 do século XX, não há livros abordando o assunto 2de forma relevante em seu aspecto musical, assim como não há publicações (nem mesmo acadêmicas) contendo abundantes transcrições e registros musicais que ajudem a preservar esta manifestação que tem declinado bastante quantitativamente devido à mudança da própria dinâmica da atividade da pecuária, cada vez mais tornada mecanizada e pragmática, apartada de sua natureza simbólica originária.
O tema despertou a atenção de célebres estudiosos brasileiros. O primeiro texto com abordagem “folclórica” publicado por Luís da Câmara Cascudo foi um pequeno ensaio sobre o aboio, uma descrição um tanto poética sobre o espírito e o ritual expressivo do aboiador. Posteriormente, foi mais fundo na temática dos vaqueiros em duas obras, A vaquejada nordestina e sua origem, e Vaqueiros e Cantadores. No entanto, 4estas obras do grande folclorista potiguar abordam o aspecto histórico, social e antropológico das manifestações estéticas do universo do vaqueiro, não estando incluídas nelas transcrições de aboios coletados nem análise musical das melodias e modos de entonação. Mário de Andrade chegou a escrever sobre o tema, incluindo algumas transcrições de aboios coletados na década de 20 do século XX, e que seriam organizadas por Oneyda Alvarenga como capítulo do livro As melodias do boi e outras peças. As transcrições de Mário de Andrade foram poucas, pois fizeram parte de uma 5investigação mais ampla, a saber, os modos e sentidos da figura do boi no imaginário criativo da cultura popular como um todo. Mais recentemente, foi publicada a obra Aboio, Poesia, Improviso, Cantoria: Origens, de João Monteiro Neto, abordando 6aspectos históricos e culturais do fenômeno, sem adentrar, no entanto, o universo musicológico, nem apresentar transcrições ou análises propriamente musicais. Alguns trabalhos acadêmicos sobre o tema têm surgido nos últimos anos, geralmente investindo no ângulo histórico ou cultural antropológico. A dissertação de mestrado na UFPB Aboio no Sertão Paraibano: um canto no trabalho, um trabalho no canto, de Adriano Caçula Mendes, aborda questões musicológicas de valor, mas também conta com pouquíssimos registros e transcrições musicais.
O projeto Livro de Jacó não se resumiu apenas à preservação do legado de uma cultura tradicional, mas imaginou possibilidades para a renovação da linguagem expressiva da melopéia dos vaqueiros. A arte dos aboios é (ou era, conforme veremos mais à frente…) riquíssima musicalmente, apresentando ligações com a música árabe, a cultura ibérica, além de possuir um espontâneo e autêntico arrojo formal, permitindo improvisos e dilatações temporais que causam uma sensação de atemporalidade, um tempo musicalmente rubato, que se aprofunda no espaço aberto do pastoreio. Ou seja, além do valor tradicional, a forma criativa dos aboios possui grande valia para considerações de elaboração e experimentação musical. É importante que isso seja melhor revelado aos pesquisadores, artistas, e ao segmento estudioso da cultura brasileira em geral.
Sou um artista e pesquisador que se caracteriza pelo tratamento universalista e interdisciplinar das tradições culturais brasileiras. Aceitei o implícito desafio proposto por Câmara Cascudo em sua obra Mouros, Franceses e Judeus – Três presenças no Brasil, quando diz ser o aboio “insuscetível de grafação em pentagrama”. Como compositor 7poliestilista e íntimo das técnicas de notação de diversos períodos históricos, creio ter rebatido nosso saudoso etnógrafo concebendo um modelo de grafação eficiente e claro, que transmite com um menor grau de ambiguidade as nuances de entonação e ritmo livre presentes no canto dos vaqueiros. Meu modelo de notação para as transcrições se baseou na escrita de música de concerto contemporânea em sua vertente indeterminada, com traços extensores indicando duração de notas em vez de células rítmicas convencionais.
ALGUMAS QUESTÕES RELEVANTES DA PESQUISA
O processo de pesquisa e coleta do material do Livro de Jacó apresentou alguns problemas que não podem deixar de ser registrados aqui. O mais importante deles se refere à decadência da musicalidade geral do vaqueiro. Poucos aboiadores que entrevistamos conseguem sair dos clichês modais e rítmicos e se aventurar no grande rubato expressivo livre e improvisado, de influência árabe. A tendência generalizada é a de decorar e repetir fórmulas, desprezando o próprio aboio e privilegiando a toada feita com poemas de qualidade, muitas vezes, duvidosa. Hoje em dia, é muito difícil encontrar um aboiador que se dedique tão somente ao aboio, sem incorrer na “tentação” de cair na toada. Estranho processo de “evolução" que na verdade involui o gênero, empobrecendo as possibilidades do canto. Em verdade, atualmente o aboio se tornou, em grande medida, uma mera introdução para a toada. Esta introdução vocálica, e que remete à tradicional chamada do boi, é bem curta, durando às vezes apenas 3 segundos, servindo praticamente como um tempinho de preparação para o aboiador/toadeiro “pegar o tom” da toada decorada ou improvisada.
No sertão, há uma certa confusão sobre o que é aboio e o que é toada. De fato, é comum os aboiadores e poetas chamarem de aboio a composição toadística, mesmo que esta não seja introduzida ou intercalada por aboios de verdade. Alguns poetas aboiadores, como Jairinho (Sítio Serrinha/PE) no entanto, insistem em dizer que toada sem aboio não tem valor, pois se desvincula da essência do vaqueiro. O conhecido vaqueiro, e agora pequeno fazendeiro Júlio Duqueira (Serrita-PE), esclarece esta questão de forma bem simples: existe aboio de vaqueiro, e existe aboio de poeta. Vaqueiros, segundo Júlio, praticamente não escrevem versos, como é o caso dele próprio, de Assis Vaqueiro, de Passo de Bastião Inácio e tantos outros. Os compositores de toada geralmente têm maior nível de instrução, e domínio de aspectos métricos da poesia tradicional. Caso curioso é o de Dantas Aboiador (Santana do Cariri-CE), homem muito humilde, cujas toadas não possuem nem métrica nem rima, sendo improvisadas de forma tocantemente simples. Seu improviso verbal se assemelha a salmodias que refletem o aspecto devocional de seu catolicismo patente.
Outra questão importante é em relação à nomenclatura do aboio meramente vocálico (sem letra). Alguns o chamam de "aboio solto” (como Lanin, de Bodocó-PE), outros de "aboio pé-de-serra” (como Mané do Cego, de Assaré-CE). Ainda ouvi falarem de “aboio verdadeiro”, "aboio de improviso” e, como Júlio Duqueira, "aboio de vaqueiro”. Este tipo de aboio é o que desperta maior interesse musicológico, principalmente quando o vaqueiro improvisa a linhas melódicas e não apenas canta o que já houvera decorado. Não é tão fácil encontrar improviso verdadeiro em aboios atuais; mais comum é ouvir o vaqueiro repetindo pequenas fórmulas e clichês melódicos. Mais uma vez, chamo a atenção para o empobrecimento musical causado pelo predomínio da toada sobre o aboio. Como o aboio muitas vezes é apenas uma “desculpa” para o poeta começar a entoar seus versos, o caráter instintivo de aventura melódica cede espaço a fórmulas mais básicas, como aquelas mais facilmente encaixáveis em métricas repetitivas de uma toada. Ou seja, além do empobrecimento melódico, há uma precarização do ritmo rubato dos aboios, que parecem agora importar uma métrica comportada, derivada do ritmo simples da toada. Quando ouvimos aboios da década de 70, em videos documentais no YouTube ou gravações de campo realizadas por Mário de Andrade nos anos 30 do século XX, podemos perceber facilmente o decaimento do espírito improvisatório e do poderio vocal que acomete os aboiadores atuais. Durante as entrevistas que fizemos, foi recorrente minha demanda por aboios livres. Muitas vezes o aboiador até começava a aboiar, mas após alguns segundos (não mais que 10 ou 15) já começava a versejar uma toada. Tive que insistir um pouco para que o aboiador/poeta não interrompesse o livre aboiar; alguns acolherem com facilidade minha sugestão e seguiram improvisando. Estou ciente de que um rigoroso trabalho etnográfico não acata induções por parte do pesquisador, mas nesse caso achei necessário investigar o que estava por trás do toadeiro, sua memória musical mais ou menos adormecida. Infelizmente, não consegui agendar situações em que eu visse o aboio sendo praticado durante a lida do gado. Em uma ocasião, no entanto, quando entrevistei Antônio Santana (pai e filho, de Granito-PE), consegui que subissem no cavalo e conduzissem o gado da pequena propriedade que possuem. Relevante a mudança da expressividade do aboio cantado durante a montaria a cavalo e aquele mais protocolar, sentado em uma cadeira durante uma entrevista. Em relação à espontaneidade do vaqueiro, mais uma vez vale frisar a diferença entre o aboio de vaqueiro e o de poeta. Enquanto o poeta pode exercer seu talento diante do público, em eventos ou programas de rádio, por exemplo, o vaqueiro precisa da natureza, dos espaços, e da concretude de seu labor para revelar seu canto.
O CANTO E A NATUREZA
O canto do vaqueiro é direcionado ao gado, o do poeta à platéia de humanos. Lanin Aboiador me alertou: “quer fazer um vaqueiro calar, bote um microfone na frente dele”; ou seja, o aboiar é um processo, e este processo envolve a relação afetuosa com os animais, na amplitude dos espaços naturais. Cada vez é mais difícil manter esta relação viva, tendo em vista de que os processos pecuários mudaram bastante, se tornando mais mecanizados. Hoje em dia, o gado é transportado por caminhão, e alguns vaqueiros jovens chegam a tanger o gado montados em motocicletas. Entrevistei um aboiador/ poeta jovem, Leo Aboiador (Granito-PE), que relatou ter passado por uma única experiência de condução de gado por muitos dias, tangendo o gado de Ceará a Pernambuco, se não me engano. A necessidade de manter o rebanho unido, evitando a escapada de reses, demanda do vaqueiro bastante atenção e técnicas de tratamento de animais com personalidades distintas (os vaqueiros buscam sempre entender os jeitos e impulsos de cada boi, dando tratamento adequado a cada temperamento). A música é parte importante nesta labuta: há aboios para tirar o gado do curral, para chamar pra comer, para acalmar o boi, para evitar debandada, para tratar a rês enferma etc. Geralmente a melodia vocálica é acompanhada de breves interjeições que se relacionam com o contexto da labuta. Às vezes o aboio se reduz a meras chamadas em tom de urgência (“bora boi, passa, passa…"), mas há ocasiões em que o vaqueiro sente conexão espiritual com o ofício, a natureza e a fé cristã. Nesses momentos, o cantar parece transcender o ofício e se transformar em uma espécie de oração, o que remete às origens do aboio (a convocação para oração dos fiéis islâmicos nas mesquitas). Vaqueiros são muito religiosos. É muito comum a devoção por Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, Padre Cícero, e até São Sebastião. Um vaqueiro me disse que “só existe vaqueiro porque existe Jesus Cristo”. O legado do canto islâmico para a música de pastoreio na Ilha da Madeira (Portugal) e daí a migração da melopéia para o nordeste brasileiro foi comentado por Câmara Cascudo e outros etnógrafos. É possível que, no Brasil, o aboio já tenha chegado com o sobrenatural dissolvido na natureza em uma só entidade.
1 Raimundo Jacó, primo de Luiz Gonzaga, foi assassinado na região de Serrita/PE em 1954, 1 supostamente por motivo de inveja. Além de vaqueiro com fama de impetuoso em busca de rês perdida, Jacó foi também, segundo consta, um exímio aboiador. Uma das maiores festas populares do sertão, “A Missa do Vaqueiro” (em Serrita), é dedicada à sua memória, reunindo centenas de vaqueiros e muitos aboiadores de de todo o nordeste. O evento, por motivos óbvios, fez parte do cronograma deste projeto.
2 ALLGAYER-KAUFMANN, Regine. O Aboio - Der Gesang der Vaqueiros im Nordosten Brasilien (1987).
3 CAMARA CASCUDO, Luiz da. O Aboiador, Revista do Brasil, N.67, São Paulo (1921)
4 A Vaquejada nordestina e sua origem, I.J.N.P.S, Recife (1969) e Vaqueiros e Cantadores, Ed. Itatiaia / 4 USP, São Paulo (1984)
5 As melodias do boi e outras peças, Duas Cidades, Brasília (1987)
6 MONTEIRO NETO, João. Aboio, Poesia, Improviso, Cantoria – Origens, Ed. do autor, Recife (2017)
7 Mouros, Franceses e Judeus..., pág. 25, 3a edição, Global Editora (2001). Em Tradições populares da pecuária nordestina (1956), Câmara Cascudo repete o ceticismo a respeito de uma efetiva notação musical de aboios, afirmando que ”um aboio no pentagrama é um pinguim no Saara”.
"NOTA: Apenas os direitos de transcrição e comentários das partituras abaixo pertencem a Armando Lôbo; as obras transcritas pertencem aos aboiadores indicados e à memória coletiva do aboio"


LEO ABOIADOR
Entrevista com Leo Aboiador
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: Qual é o seu nome?
R: Leo Aboiador
R: E o nome inteiro?
R: Francisco Leonardo de Sousa.
P: Antigamente tinha mais aboio do que toada?
R: Tinha. Antigamente tinha mais vaqueiro, né? Hoje em dia os vaqueiros não são mais como os de an tigamente. An tigamente os vaqueiros campeavam de cavalo. Toda luta que fazia era no cavalo. Vinha pra feira no cavalo. Ia pra casa do vizinho no cavalo. Hoje em dia não. Os vaqueiros de hoje estão muito modernos. Só querem andar de moto. Até pra juntar o gado dentro das roças é de moto. De moto, né? De moto. Tem preguiça de pegar o cavalo, de arriar, de botar a sela, de banhar. Então na moto só ligou, vai-se embora. Estão achando melhor do que ir a cavalo.
P: Daqui a pouco vão aboiar à moto, né?
R: É, e hoje em dia não tem mais aquele vaqueiro que aboia. Tem aquela tradição, que tem aquele amor por fazer aquele trabalho. Hoje em dia é só pra sustentar a família. Eu preciso fazer isso porque eu tenho que sustentar minha família. E eu vou chegar lá só grita com o gado.
P: Você sente a diferença do cara que é aboiador de show, que vai pra vaquejada e aboia, e aquele que é aboiador mesmo, vaqueiro, que sobe em cavalo. É diferente?
R: É diferente. Porque com o gado, a gente tem que aboiar com o gado. Porque aquilo é como se você fosse se comunicar com uma pessoa. Você vai falar com uma pessoa, você tem que usar aquele jeito com aquela pessoa. E o gado só entende você se você aboiar com ele. Que aquilo, por exemplo, é... O português do gado é você aboiando com ele, né? Você aboiando com ele, que é chamando, aboiando, chamando o gado pelo nome. E cantar a toada é diferente, né? Aquele aboiador que vai aboiar na cidade ali, ele começa com um aboiozinho, mas só que não é aquele aboio do sertão. É só um aboiozinho pra começar a a toada que é na letra, que é cantada.
P: A letra conta o que geralmente? A história de uma vaca? Tem história de amor também?
R: Geralmente tem, muita agora.
P: Traição, essas coisas?
R: Traição, de amor, de casamento acabado, de um boi que foi pegado, de um cavalo que morreu.
P: Política também?
R: Política, de tudo.
P: Botam Lula e Bolsonaro no meio?
R: Botam. Tudo que tiver no Brasil, botam.
P: Mas a tradição mesmo é o aboio, né?
R: A tradição é o aboio daqui, que fala mais em cavalo, em gado, né? Em mulher bonita, em cachaça - que o vaqueiro também gosta. Desse jeito. Agora, na cidade já muita gente pede, né? Aboio pra Bolsonaro, pra Lula, pra questão polí tica.
P: O cara tá no meio do mar, com os boi, com as vacas, e vai falar em Bolsonaro e Lula?
R: Não dá certo. (risos)
P: Quando vocês estão aboiando o gado mesmo, é mais o canto, e uma ou outra palavra, certo?
R: É, uma melodiazinha. (Leo faz a demonstração de um chamado)
P: Esse chamado é pra quê? É chamando o boi ou o cavalo?
R: Tangendo o gado, né? Na estrada pra levar pra outra roça. E chamando pra dar ração às vacas, ou até os boi que você criar. (Demonstrando um chamado) Quando você vai tangendo na estrada, que é pra levar pra outra localidade, aí você: "Êh ah, anda pra frente, boi… ô…ê…”. Aí tem que entrar no canto errado. "Vira pra lá. Pra lá, Teimoso…”. Esse é pra tanger o gado pra frente, né?
P: por exemplo, chamar e trazer pra comer, ou chamar pra o gado andar... E aqueles que você sai e você sente mesmo que é um cantor no meio do mato. Não acontece?
R: Acontece. Aí vem o cabra botar na roça assim e fica sem ter o que fazer e vai cantar pra desparecer, pra tirar a tristeza, né?
P: Hoje um cabra me disse que às vezes o cara está com dor depois de um ferimento no meio do mato e aí começa a cantar pra poder aliviar, fingir que não está com dor. Acontece isso?
R:Rapaz, comigo mesmo não. Porque a dor é a dor, né? Mas já meu avô, ele dizia que aboiava pra desaparecer, às vezes tava meio triste. Aí eles pegavam um boi e soltavam um verso com aquele boi que foi pegado, né? Pegou o boi, amarrou e ia cantar uma toada, ele mesmo com um boi, e os amigos dele riam e gritavam e achavam bom. Porque naquela hora era um momento de alegria pra ele, né?
P: Mas isso em cima de cavalo ou depois?
R: Em cima de cavalo. Depois ele pegava e amarrava; tem um que ele dizia que ele pegou o boi, mais os amigos dele, né, e um cabra disse que ele não pegava o boi. Aí ele foi e disse... (cantando) "Corri com o touro ligeiro e já deixei meu recado. O patrão disse que eu não deixava ele pegado. Mas mostrei pro mundo inteiro que eu sou um bom vaqueiro e o seu boi tá amarrado”. Aí o vaqueiro que tava perto dele, né? Gritava, ba tia palma e achava bom.
P: E os versos são todos cer tinhos na métrica, né?. O vaqueiro que bota uma sílaba a mais, uma palavra a mais ou a menos, pega mal, né?
R: Pega mal. Tem que ser na rima ali, né? Às vezes tem de sete sílabas também, que aí você pode alterar. Começa com uma palavra e termina com outra, com uma rima e termina com outra rima. Mas já, o mais comum, muitos que não nasceram com esse dom, aprendem por causa que começa com E e termina com E, né? Essa é a toada mais fácil. Mas tem uns que começa com E e termina com ÃO, né? Porque aí ele já tá na "metrífica (métrica), já botando no estudo do aboio, da toada.
P: Se o cara perder o ritmo da métrica, a turma percebe?
R: Percebe na hora. Se você, por exemplo, pedir um verso, né? O cabra pede um verso: "Faça um verso pro meu cavalo Espoleta”. Você tem que ir rimando com aquilo, porque se você sair fora, todo mundo tira onda de você, e se você acertar, todo mundo acha bom.
P: E se o cara desafinar, cantando? Você percebe também?
R: Percebe. Tem que ter voz e tem que ter a rima. Geralmente é melhor quem já nasceu com esse dom. Aí sim, toda hora que você pedir, faz. Agora, tem uns que vê uns fazendo e quer fazer também e vai aprender pelo estudo, né? Estudar a palavra que rima com a outra. O povo hoje em dia dá valor à fama que você faz lá no palco. Ou no palco, ou no meio de uma turma. Se você aboia ruim, todo mundo já diz.
P: Eu acho, sinceramente, que tem que saber se você aboia bem é a vaca. A vaca tem um bom gosto danado R. Tem gado que não segue o vaqueiro, porque ela conhece que ele não... só pela voz dele, pelo chamado, ela sabe que ele não sabe fazer aquilo. No gado, que o cabra vai levando no sertão, tem que ter o guia, que é o da frente, né? Aí vai chamando: Ê Ô Ô.. Aí o gado vem atrás de você. Mas tem muitos que... (de forma grosseira) Chega, chega! Chega, vaca! Ela não vai. Ela acha bom ouvir coisa boa, né? É, que nem gente mesmo, né? Se a gente for ríspido com uma pessoa, ela vai querer ser com você; então, o gado, ele também não vai lhe acompanhar, ele vai querer entrar noutros cantos pra lhe dar trabalho.
P: E vocês, às vezes, abatem boi também?
R: Abatem.
P: E não dá dó não, cara?
R: Dá. Mas só que pra matar, a gente não mata do que a gente cria. A gente compra fora. Porque o cavalo não tá vendo ele direto, não tá cuidando dele, entendeu? Porque assim, a gente tem que comer, né? Aí é melhor comprar.
P: E aí o que vocês criam, vocês vendem?
R: É, os que nós criamos, nós vendemos os machos. As fêmeas a gente deixa mais porque vai produzindo mais. A gente não com os que cria não, porque ali dá dó mesmo. Porque é tipo uma pessoa que convive com você, né? Todo dia, todo dia, a gente se apega. Aí quando a gente vai matar assim, a gente troca um da gente num que a gente não conhece e mata. Também faz dó também, mas só que não dá pra comer o bicho vivo. Todo animal tem que morrer pro cabra degustar da carne.
P: E assim, sem ser toada, aboio mesmo, fora as coisas da chamada, eu já vi alguns aboios em que o vaqueiro vai longe vai longe, longe, vocalizando. Esse tipo de modalidade, parece que às vezes o cara não tá nem chamando o boi, tá mesmo no prazer de cantar.
R: Tem uns aboiadores que usam isso ainda. No começo de uma toada aí dá um aboio bem grande.
P: Você faz aboio grande também antes de uma toada?
R: Eu faço. Quase todos que cantam fazem. Tem uns que só fazem assim: “Ê A" (cantando duas notas com intervalo descendente de terça menor)
P: Quando você faz aboio e toada você aprendeu da memória ou você também improvisa?
R: Tem umas horas que a gente improvisa. Inventa assim. Tem outro jeito também que eu faço (canta um teminha de introdução de toada).
P: Esse que você falou agora já é um teminha que todo mundo às vezes usa?
R: É, esse aqui é um tema que quase todos os aboiadores usam. Porque ele já é tipo feito, né? Aí, tem uns que a gente improvisa na hora. Tem o público também que acha bom e tem aquele público que não acha bom isso. Acha melhor começar logo.
P: Começar logo pra ver a toada. O povo quer ver a letra porque tá acostumado a ouvir canção de rádio.
R: Porque esse povo é mais moderno. Mas esse povo de an tigamente quando eu começo com um o aboio mais grande eles falam: "me arrupiei todinho, só no começo”. Esse povo mais moderno não. Se eu começar assim aí o povo: "vai, vai, cuida logo”. É porque é acostumado com as músicas. A música que já começa tudinho uma atrás da outra e nem para mais…
P: Aí se botar Lula e Bolsonaro eu vou me embora. A beleza mesmo é da natureza.
Leo começa a improvisar um aboio seguido da seguinte toada, no tradicional esquema de versos de 7 sílabas (redondilha maior) com rimas em ABBCCAAC:
Eu admiro o sertão
Por toda a sua beleza
No sertão nós tem riqueza
Que todo mundo aqui vê
Se assim dá pra perceber
Que isso daqui é sertão
Isso é nossa tradição
E é bonito de se ver
P: E às vezes em um torneio o cara pede um tema pra você?
R: Eu já fui numa disputa de aboiador na Serrita, que eu perdi pra Chico Jus tino. Fiquei em segundo lugar E o cara lá dava os temas. E ele dizia: "O tema pra vocês é O chocalho da saudade badala em meu coração." Aí o Cabra tinha que fazer pra terminar com isso, Todo verso seu terminar com isso, "o chocalho da saudade badala em meu coração"
P: Sabia que isso é diicil de escrever? Porque a afinação de vocês nunca é exatamente a nota da escala do piano. E outra coisa, o ritmo também é solto Pessoas por aí, quando querem fazer aboio fazem como se fosse tudo ritmado. Vocês fazem mais solto, como se es tivessem andando… Fica em aberto o ritmo.
Leo informa que às vezes o aboio é usado para acalmar a mente do vaqueiro, "dar um tempo", enquanto ele pensa nos versos da toada que segue. Tem aboiador que não acha o verso seguinte e acaba esticando o aboio "até lembrar de alguma coisa que dê certo”. Particularmente, acho muito bem-vinda a ocasional incapacidade do toadeiro organizar os versos da estrofe seguinte, se isso acarretar em um prolongamento do aboio livre, que é, seguramente, a mais profunda e telúrica expressão do vaqueiro.




ANTÔNIO SANTANA (PAI)

Entrevista com Antônio Santana (pai e filho)
P = Entrevistador
R(1) = Antônio Santana
R(2) = Antônio Santana Filho
P: Hoje em dia tem mais vaqueiro que vai pegar boi no mato do que o que canta, né?
R(2): Os que cantam são poucos.
P: Quando o senhor começou a cantar, o senhor também cantava toada ou era mais o aboio da lida?
R(1): A gente cantava tudo, né?
P: Hoje em dia tem mais toada que aboio, não é?
R(2): Só esse vaqueiro da caatinga ele aboia ainda.
P: Porque às vezes é mais pra show, né? E em show é toada, é apresentação. E o senhor fazia dos dois (aboio e toada).
R(1): Eu fazia dos dois.
P: A gente pede às vezes pede pro aboiador pra fazer uma demonstração e o vaqueiro mostra mais a toada do que o aboio. E às vezes ele faz um aboio bem curtinho, quase nada, e já começa a toada.
(Neste momento, pedi aos Antônios que cantassem um aboio. Antônio Filho propôs antes se caracterizarem com as vestimenta do vaqueiro. Mais ainda, eles me conduziram até o curral para aboiarem em local condizente com o aboio tradicional. Fizeram alguns aboios e toadas em dupla e depois subiram nos cavalos e soltaram o gado pela fazenda, para me mostrarem aboios em situação de trabalho. Alguns desses aboios / toadas foram transcritos e são parte deste volume.) Enquanto se paramentavam, continuamos conversando sobre aspectos da vida do vaqueiro.
P: Quando vai entrar na entrar na mata, num dia perigoso, reza pra Nossa Senhora Aparecida, pra Jesus?
R(1): Sempre reza pra poder entrar pro mato, né? Pra se proteger, que a arte é dura. Dura e perigosa. Se for pensar, não faz, não.
P: Muita coisa que a gente faz na vida, que se a gente for pensar, não faz.
R(2): Se a gente corre atrás de uma rês, tem lugar que só passa correndo, se vier caminhando, não passa.
P: Eu perguntei essa coisa de rezar, porque hoje eu encontrei Manim Vaqueiro (de Exu) e ele me disse que, no caso dele, não liga pra religião, não. Ele se concentra antes de entrar na mata. Pensa no que vai fazer, respira fundo e vai… Mas eu vi que tem muita ligação com o cristianismo, com a religião.
R(1): Sem a proteção, não há é ninguém, né?
P: Qual foi o risco maior que o senhor já passou? Tipo, quebra de braço, coisa que entrou no olho...
R(1): Nunca me quebrei, não. Agora um cavalo caiu com eu na lagoa, e eu fiquei enganchado, e o cavalo me arrastou. Aí pelou minhas costas, que ainda hoje eu tenho umas manchinhas nas costas.
R(2): O vaqueiro, quando ele usa um pouquinho da experiência, ele se acidenta menos. Porque ele passa, como se diz, a conhecer o terreno. Onde o chão é bom, ele vai com maior velocidade; onde o chão é ruim, ele vai mais devagar e aguarda que na frente, quando melhorar a situação, ele vai ter mais segurança, e então ele vai com maior velocidade, porque ele sabe que ali é o momento certo.
P: Se ele conhecer a rês, ele sabe entender o que a rês vai fazer?
R(1): Justamente. Se ela pegar um chão descendo, pode deixar ela ir, não avexe não. Deixar ela fazer o (?) , quando ela subir o lombo pra lá, é a hora. Daqui pra lá, tá em todo fogo. Agora, quando ela fizer pra lá, a carreira dela é pouca.
R(2): Tem que ter experiência, né? Hoje em dia, nas pegas de boi estão se quebrando muito.
P: É mais fácil a pega de boi esportiva do que a pra valer, né?
R(2): Essa machuca mais. Porque não se defende de nada. Quer pegar daqui pra aí, pra ganhar premiação, né?
R(1): O que ganha não dá pra nem pra gastar com a quebradura, né?
P: Buscando boi no mato vocês não cantam, não, né?
R(1): Não, só quando a gente (?) de lá pra cá, a gente dá uns aboio com ele, que é pra ele tomar pisada.
P: Tem aboio que você canta, que não é pro boi, que é por tristeza? Tipo assim, morreu um amigo, um parente, tem também?
R(1): Tem, tem.
P: E você aboia assim, no cavalo, ou às vezes chega até a aboiar em casa, sozinho, com saudade de alguém, alguma coisa, tem esse tipo de aboio?
R(1): Tem, tem sim.
P: Isso deve ser bonito, porque é um lamento, né?
R(1): Nessas cavalgada que nós vai, o povo pede muito pra cantar assim, pra um vaqueiro que morreu.
P: Vocês cantam junto ou cada uma a uma hora?
R(2): São diferentes. Assim, tem algumas toadas que a gente faz as duas vozes entoadas. Algumas eu faço uma estrofe e ele faz outra. Isso tudo é muito misto, é bem diverso.
ANTÔNIO SANTANA E ANTÔNIO SANTANA FILHO




Entrevista com Lanin Aboiador
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: O momento que a gente mais vê aboio (fora do mato, quando es está trabalhando), é quando se faz a introdução da toada, né? Geralmente a introdução faz alguns segundos de aboio e aí entra na toada, né?
R: Quando eu passei a estudar, a pesquisar, a procurar "o que é aquilo ali?”, como que acontece, né, por quê? Então a gente passa a entender muito da meditação, como se você Jvesse uma comunicação com algo a mais, sabe, fora do normal. Porque, assim, você vai dormir e acorda com aquela música na mente ali, o som...
P: Ou seja, não é só a conversa com o gado, não.
R: É outra coisa, e mais, é mágico, entendeu? Bom, você viu aqui essa capelazinha bonita e tal, e você já foi pra casa pensando nisso aí. Quando é amanhã você tá com a toada feita, aquela música feita na mente, né? E aí a pessoa faz toada, no caso, né? Acho que o músico que usa instrumento também deve ser diferente, né? Eu não posso cantar o mesmo ritmo do parceiro, entendeu?
P: Quando vocês usam o aboio na introdução da toada, geralmente é uma coisa que vocês já cantaram ou vocês também inventam a introdução?
R: Inventa. Isso aí, no meu caso, é o, como é que eles falam?… melodia. Eu tenho a minha melodia, ele tem a dele, entendeu?
P: De introduzir?
R: É. Porque, assim, por mais que você faça uma poesia, um poema, que queira dominar a melodia de outro, fica parecido demais. Não tem como. Porque rima é rima, verso é verso. Eles são tudo na mesma regra, só muda as palavras. Então fica muito parecido. É sem graça. Então, assim, é bem interessante. Como que você vai… acha bonito tal coisa e tal... e aí, para pra pensar e daí vem a melodia na mente e você começa a cantar.
P: Vem a melodia da toada ou vem a melodia do aboio, da introdução?
R: Da toada.
P: Mas o aboio geralmente é uma coisa mais improvisada, que você não pensa, né?
R: O aboio é improvisado (…) A toada talvez não seja bem o improviso. A a toada é uma história, é uma...poesia dedicada a aquele falecido, uma ex-namorada… Isso aí você decora, né? É uma coisa decorada. O verso não, tipo assim... e aí você me pergunta: "Como foi esse verso aí que você fez?” Eu não consigo repetir. Eu posso fazer parecido.
(Lanin chama de verso à toada improvisada, de toada à toada concebida de previamente)
P: O aboio mesmo, que é sem letra, só a chamada do boi, só rola mesmo no campo, na lida?
R: É porque, tipo assim, o gênero do aboio livre é outra técnica também difícil, porque tem que ter afinação de voz, pulmão, concentração e… é difícil de mais dominar. Mas ele... ele é na hora, vamos dizer, essa questão do trabalho, né? Você tá lidando com gado, vai chamar o gado, ou tá chovendo... Mas é mais na lida do gado, né?
P: A gente tem ouvido muita toada e pouco aboio, porque o aboio é mais no trabalho, na função, né? Mas, assim, o que a gente mais se arrepia é com o aboio. Porque parece que a alma vai pelo espaço.
R: É um gênero como se fosse ali, tipo um desabafo, né? Eu vejo muito esse lado do desabafo, tanto pra tristeza, felicidade, chegou o inverno...
P: Ou seja, não é só pra ajudar o gado a andar, né? É pra você...
R: É um desabafo ali, com a solidão, tipo... O vaqueiro é muito solitário, não tem tempo pra nada. A vida dele é o gado, entendeu? E… e leva como paixão também, tem que ter muita paixão por isso. Então, geralmente, o aboio surge nessas horas, que ele tá feliz, ou com a tristeza, sentindo falta…
P: O Léo, o aboiador, cantou um aboio de lamento pra morte de alguém. Um negócio bonito, mas triste, mais sério. Isso também acontece, né?
R: Acontece.
P: Ou seja, você, além da... Além dos animais que vocês estão ajudando a conduzir e tudo, cuidando, tem um sentimento que você coloca no negócio.
R: Coloca.
P: Alguém que morreu, né?
R: E aí é um estilo de cantoria que traz muita solidão. Você vê, não tem instrumento. Muitas das vezes, não tem um parceiro. E quando tem, é pareando as vozes. Aí fica mais penoso ainda, né? Eu acho muito lindo.
LANIN ABOIADOR


PEDRO BRÍGIDO
Entrevista com Pedro Brígido
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: Quando você começou a aboiar?
R: Desde os 9 anos.
P: Mas aboiando já com poesia ou apenas com a chamada do boi?
R: Com poesia, já com poesia, desde os 9 anos, só que eu virei profissional quando já tinha 29 anos. Assim, profissional, convidado pra cantar nas festas… Gravei 7 CDs. Naquele tempo, a gente cantava no seco. Sabe o que é no seco, cantar no seco? Sem microfone, sem nada…
P: Sim, mas o senhor trabalhou na lida do boi também?
R: Trabalhei, trabalhei.
P:Então, aboiava em cima do cavalo?
R: Aboiava, com certeza.
P: Há uma diferença entre o Aboio e a Toada, que pra mim, que estou pesquisando, é bem clara. O aboio é muito mais uma vocalização pra chamar o boi, pra conduzir e tudo, não tem o verso, geralmente. O verso é a toada, não é isso?
R: Isso
P: Então, o aboio mesmo, aquele que é mais pra chamar o boi, esses vocês usam na toada, no começo da toada
R: Chama o Aboio Livre.
(Pedro improvisa um aboio e uma pequena toada de uma estrofe)
P: Então, aí você fez uma introdução de Aboio Livre e depois botou um verso de improviso.
R: Com certeza
P: Eu vi que o senhor estava boiando ali, fazendo as toadas com sete linhas. (Antes da entrevista, Pedro estava cantando em um palquinho armado no evento da Pega do Boi no Mato, parte da Missa do Vaqueiro de Serrita.)
R: É isso
P: E o seu amigo com seis, Naldinho.
R: Com seis, é.
P: Era o estilo de cada um, ou o senhor também aboia com outra métrica?
R: Eu aboio, assim, até dez linhas.
P: Até dez linhas?
R: É. Sete linhas, o comum, até dez linhas. Só que o parceiro chegou assim… O parceiro, no modo de falar. A gente não tem entrosação de fazer ensaio, né? Aí, do jeito que ele fizer, a gente acompanha, mas a gente acompanha mais no ritmo que a gente sabe, do jeito que a gente sabe.
P: Ele estava fazendo em seis. Só na última ele fez em sete.
R: Aí, a gente… não tem nada a ver xingar porque o poeta é ruim, é não. Cada um tem seu estilo
P: Tem poeta que não rima também?
R: Tem poeta que não rima.
P: Como é que se chama o aboio de quem não rima?
R: Aboio de quem não rima? Declamação. Minha filha é declamadora, só que ela não está aqui.
P: Ou seja, fala os versos, mas não há rima.
R: Ela pode falar assim: Tô aqui na missa do vaqueiro Que é um grande setor Essas terras de Serrita Vou abraçar com amor Isso aqui é meu estilo, Meu pai, que mostra um brilho Pedro Brígido, aboiador.
P: Mas aí tem rima… não tem a melodia, né?
R: É, não tem a melodia, não tem a voz, a divulgação pra cantar em toada, fazer o estofe de verso.
P: E a palavra "toada" vem de duas pessoas entoando juntas? "Entoar" virou “toada"?
R: Não, isso aí tanto faz. Eu sou poeta toadeiro. Aí tem o outro poeta que vem cantar mais eu, cantar uma toada feita assim, um modo de falar assim… Os dois, um fazia a primeira voz e o outro a segunda voz. Aí chama cantar entoado. Mas aí, o poeta toadeiro, tanto faz. Eu sou toadeiro, eu sou improvisador, faço verso improvisado…
P: Certo, cara pode fazer toada sozinho, não entoar com o outro. O senhor também faz de dupla?
R: Faço. Se eu achar um cabra bom que der certo naquele estilo, que nem Antônio Santana, Leo Aboiador…
P: E aí o senhor prefere fazer a primeira voz ou a segunda?
R: Eu faço a primeira, mais alta Eu posso fazer assim: (Pedro agora canta uma toada, primeiro a primeira voz, depois a segunda): - Eu venho desde menino Desde muito pequenino Cumprindo um belo desHno Que me deu Nosso Senhor Eu nasci pra ser vaqueiro Sou o mais feliz brasileiro Só não invejo dinheiro Nem diploma de doutor
R: Aí no caso, pra fazer a segunda voz tem que ser um poeta tarimbado pra aquilo, porque a segunda voz levanta muito as cordas vocais; aí você não aguenta do começo ao fim (…) Não adianta você começar uma atuada, um improviso, um estrofe de uma toada, num tom pra terminar em outro; então, tem que segurar num tom só, do começo ao fim. Entendeu?
COMENTÁRIO: Há uma confusão entre aboiadores na nomeação da primeira ou segunda voz em uma toada cantada em dupla. Pedro Brígido fala de primeira voz como sendo a mais alta, porém parece se misturar tudo quando diz que a segunda voz “levanta muito as cordas vocais”, pois voz que tensionaria mais as cordas vocais seria justamente a primeira, mais aguda.
P: O vaqueiro, quando está em cima do cavalo, aboiando, conduzindo o gado, ele só aboia para levar o gado, como trabalho mesmo de vaqueiro, ou ele também aboia por tristeza, por lamento, por saudade? Às vezes nem precisa chamar o boi e ele já sai aboiando a cavalo?
R: Às vezes nem precisa. O vaqueiro precisa de aboiar quando ele está estressado. "Vai boi! Ei, ei!”. Ô gado, vai para lá, vai para cá. Ele precisa. Mas também, quando o gado vai todo lento na estrada, todo sossegado, ele vai cochilar em cima do cavalo, ou do burro, né? Aí ele tem que puxar uma toadinha para espertar o sono, aquele estresse que está trazendo ele, tal, tal; Ele está pensando em dormir, com vontade de dormir. Quem é que não cansa? Aí ele tem que puxar uma toadinha, porque o gado vai todo sossegado, sem dar trabalho, ele vai ficar ficar esmorecido. Se o gado vai dando trabalho, entrando uma vala, entrando noutra, ele está estressado ali, trabalhando: "Vai gado, sai daí, vaca velha! Oxên, que é isso, vaca? O que é isso, Cumbuquinha?, O que é isso, Laranjinha?”. Que é o apelido das vacas, né?
Esse gado é companheiro
Se torná-lo delicado
Eu faço a rima na hora
Sou vaqueiro preparado
Porque meu jeito é assim
O gado pegou o camin
Porque eu tô mais estressado, oi…
P: Essa aí o senhor fez verso agora, improvisou, né?
R: Isso é improvisado, isso aqui é improvisado. Contando assim a vida do vaqueiro, que também já trabalhei três anos e oito meses numa fazenda, correndo depois na Caatinga. Já hoje, não dá mais para mim. Já estou velho, a idade meia avançada.
P: Tá com a saúde danada aí, rapaz! Gosta de tomar uma?
R: Não, não bebo não.
P: Só um vinhozinho ali, né? que eu vi.
R: Uma coca-colazinha ali.
P: Tem jeito que o vaqueiro gosta de uma Dreher, né?
R: Gosta, com certeza. Chegou aqui na minha menta, ó, a coca-cola, ó, aqui, ó, a pepizinha. Pronto, a minha cachaça é essa, pra aguar a garganta pra fazer a toada. Aí, eu quero dizer assim, ó. Só que o vaqueiro é um astro querido na região, entendeu? O vaqueiro não é esquecido na região Nordeste. O Sul, no Sul também existem essas coisas, vaqueiro. Só que eu já morei em Mato Grosso do Sul, morei em São Paulo. Lá chama o vaqueiro o campeiro. Só que faz a mesma luta nossa, aqui, no sertão. Mas eles não cantam. Olha minha cachaça aqui, a coca-cola. E meu filho briga comigo. Meu filho é formado em professor. Ele briga: "Pai, não bebe isso aí, não. Faz mal”. Eu digo: ”Faz mal não, faz mal você não beber”.
P: O aboio livre está ficando menos comum? Porque a garotada, hoje em dia, a gente vê que tem muito transporte de gado, de caminhão, de carro, de tudo. Então, não é como passar três dias no mato aboiando.
R: É não. O aboio livre está ficando uma coisa difíça. Não é como era antes. Porque antes, na época eu trabalhava na fazenda, de 89 a 90 e umas coisas, se você fosse tanger um boi, um garrote, um bezerro, fosse o que fosse, ele ia estrovado, de careta e gibão. Entendeu? Hoje, você encontra um cidadão, um boiadeiro - nós chama aqui boiadeiro, o comprador de gado - com dez bois, vai um de pé e outro montado numa moto. Entendeu?
P: Esse não canta nem nada, quem canta é o pneu.
R: Naquele movimento de trabalho, você vê de longe. Vem o vaqueiro montado numa moto, outro de pé, pra quando o gado entrar numa vareta, o que tá de a pé já tomar o gado. Entendeu? E antes. O vaqueiro ia dois encourados, perneira, chapéu e gibão. Saía tangendo o gado aí, pra qualquer lugar.
P: E aí passava três dias na...
R: Passava.
P: Quantos dias? Chegava a passar 15 dias?
R: Mestre, é o seguinte. Passava até uns dez dias. E o boiadeiro João Cornéu, que já faleceu, era aqui do nosso sertão, do Granito, ele tangia gado pro Ceará, pro Crato, no Ceará. A cavalo. Em cima de uma burra ali, cochilando, cochilando… Mas sempre sem deixar esquecido aquele grito do vaqueiro. Quando o boi pisava um pouquinho na bola, o boi dava uma cabeçada no outro, o vaqueiro já se acordava aqui, já se orientava e dizia: "Vai boi, vai boi!”, e o boi… É que nem eu falei. Hoje não. Hoje é em cima de uma moto ou de pé.
P: Você pode fazer um abio livre para eu ver?
R: Posso arrochar? Vou ajeitar o chapéu aqui, ó… Pode até ser besteira ajeitar o chapéu, mas… Eu sou poeta desde os nove anos de idade. Às vezes eu sou convidado para cantar numa festa, num evento, pega de boi, cavalgada, seja o que for, evento cultural, aniversário, tudo isso a gente participa. Aí eu fico imaginando…como é que eu vou cantar, que eu tô meio esmorecido, tô com raciocínio meio ruim… Aí, na hora que eu pego essa arma aqui, ó - chama chapéu de couro - já muda tudo, entra tudo na memória, graças a meu bom Deus.
P: São as antenas, né?
R: Entra tudo na memória. Meu chapéu de couro, entendeu?
P: Se tirar o chapéu, o verso não aparece, nem a melodia, nem nada?
R: Eu não sou poeta se eu não tivesse com um chapéu de couro.
(Em seguida, Pedro faz um aboio livre improvisado. Este aboio se encontra transcrito no presente volume. Depois do aboio, ele continua…)
R: Esse aboio livre aqui, sabe pro que é? Sabe não?
P: Não.
R: Vou lhe falar agora.
P: Diga.
R: É para chamar, aliviar a mimória, pra entrar os improvisos da mente da gente. Entendeu? Você vai limpando a cabeça. limpando a mente…Na hora que se pede um verso, "passa um verso para fulano, pra sicrano, Raimundo Jacó”, se você fizer assim, ó:
(Pedro faz um aboio livre, seguido da toada improvisada abaixo)
Sou poeta nordestino
Canto forçando o gogó
Homenagear os vaqueiros
Que corre lá no cipó
Essa coisa é tão bonita
Essa festa em Serrita
Em homenagem a Jacó, ê….
R: Mas primeiro veio o aboio livre, pra entrar na mente o que a gente vai falar.
P: Durante a lida, levando o gado, às vezes o aboiador pode fazer só o aboio livre, sem cantar a toada?
R: Sim. Mas o ritmo, o improviso, não entra na mente deles, porque pra cantar tem que ter o dom. Pra fazer o improviso, cantar… Na hora que uma palavra sai da minha mente, da boca, das cordas vocais, em segundos, em segundos, a outra já está gravada na mente para a gente soltar em seguida, senão dá pé quebrado. É automático. Aí, eu digo assim, pode chegar um fazendeiro, um empresário, com um saco de dinheiro, com nota de 100, de 200, joga aí…”esse dinheiro aqui é pra eu aboiar”. Num aboia não. Aboia se tiver o dom. Sempre eu falo, para a minha família, minha filha, que é declamadora - ela que me ajuda nas toadas, escrever as cantigas dos CD meu; ela sempre me ajuda, minha filha. Aí ela diz: "Pai, mas como é que faz na hora?” Eu digo, porque é o dom que Deus me deu.

Entrevista com Vando Duda
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: Vando Duda, Vando com W ou com V?
R: Com V, o simples mesmo. Na época que eu nasci, W era negócio pra rico, não era?
P: E o senhor é aboiador apenas cantor ou também trabalhou com gado?
R: Com gado, com aboio, com evento, locução de evento, promover evento…
P: Léo Aboiador me disse que o gado que ele cria ele não gosta de comer, ele troca com outro vaqueiro e come o do outro, porque o dele ele tem pena.
R: Já eu como que é mais gostoso, que é mais conhecido.
P: Hahaha, Já vai amansando assim: "isso aqui vai dar um bife…"
R: Laço gado, amarro, ferro, eu cuido de gado, eu faço assistência veterinária, parto de vaca, ponteio, costuro, pequenas cirurgias, E a vida social também, que eu tenho comércio em casa, fui motorista um monte de anos.
P: O senhor aboiava conduzindo boi também ou canta mais em show?
R: Tocando gado, tirando gado bravo.
P: Fazia aboio livre também?
R: Tudo, aboio livre em evento, em festa, casamento, aniversário, baRzado, velório de vaqueiro, tudo, tudo.
P: Como é que é uma aboio para velório de vaqueiro?
R: Conforme a situação. Recentemente morreu um amigo da gente que cantava na cidade de Santa Maria do Cambucá, Pernambuco. Ele pediu: "quando eu morrer não quero choro.” Ele estava muito doente na cama do hospital. “Bota o carro de som, chama os amigos pra cantar”. E assim fizemos. Aboiando. Carro de som na frente, cavalo, a gente aboiando… fazendo toada.
P: Quando você fala, "a gente aboiando", é fazendo aboio livre e toada também.
R: E a toada, ao mesmo tempo.
P: E o senhor tanto improvisa verso, como canta toada que já está escrita, toada da sua autoria.
R: Sim, faço tudo.
P: Qual é a toada da sua que o senhor gosta muito, aquela que lhe emociona?
R: Desculpa de Vaqueiro. Quando eu gravei foi sucesso.
(Vando Duda emenda cantando a toada "Desculpa de Vaqueiro". Esta "toada" mais parece uma canção sertaneja do sudeste/centro-oeste, por isso, neste trabalho não a transcrevemos em forma de partitura.)
P: A Desculpa do Vaqueiro não tem a divisão nem a métrica da toada, é como uma canção, uma canção de vaqueiro
R: É. Porque o aboio sempre tem a métrica, aquilo que nem pode faltar nem pode sobrar


JAIRINHO ABOIADOR

PAULO BARBA
Entrevista com Jairinho Aboiador e Paulo Barba
P= Entrevistador
R(1) = Jairinho Aboiador
R(2) = Paulo Barba
P: Uma perguntinha logo de cara, assim. Existe diferença entre aboio e toada. O aboio é mais a chamada, sem verso, e a toada é com verso. Então, hoje em dia, a gente vê que às vezes tem um "aboinho" no começo e logo depois entra a toada. E no final, às vezes, também faz um Ê… ê… ê...(cantando) pra finalizar. Mais ou menos essa fórmula que eu vi em quase todas as toadas de aboio.
R(1): E hoje, atrapalhando o seu raciocínio, a maioria dos aboiadores, eles não estão aboiando. Eles estão cantando só as toadas. Eu acho um pecado.
P: Exatamente isso, rapaz!
R(1): Eu, se for pra mim, cantar a toada e não aboiar, acho melhor não fazer isso. Eu sou apaixonado pelo aboio de Vavá Machado e Marcolino desde os 10 anos de idade. Galego Aboiador, a lenda viva do aboio, eu sou apaixonado desde os 10 anos também. Eu ia pra casa de uma vizinha lá mais minha mãe, que não tinha televisão lá em casa, eles iam assistir e eu ficava puxando na saia dela aqui. Ela pedia a dona da casa pra botar um disco vinil de Vavá Machado e Marcolino. Eu chorava quando ouvia.
P: Eu já vi algumas toadas dele nessa semana de arrepiar.
R(1): Era o rei. Cantar no dueto, só ouvi eles até hoje.
P: Então vocês acham que, cada vez mais, o aboiador tá esquecendo do aboio e cantando só a toada com verso?
R(1): Exatamente! Que é um pecado.
P: O senhor, o que é que você acha disso? Porque eu tava falando com ele. Existe diferença entre aboio e toada, né? O aboio é mais a chamada do boi, a lida, né? O canto, às vezes, sem verso. E a toada tem verso. E, eu tenho notado aqui nessa pesquisa que, às vezes, quase não se aboia. Já se vai direto pro verso.
R(2): É, porque hoje a gente... Essas cavalgadas, o pessoal gosta de homenagear alguém e tudo. Mas você pendendo aqui pra essas feiras, dia de feira, pro lado aqui do Agreste, os encostos de Alagoas, ali... Sergipe... você vê cabra, gente que você nunca ouviu nem falar, nem viu, cantando toada dueto assim. Cantando toada autêntica, antiga. Cantando, sentindo, se arrepiando, chorando, bebendo cana. É por região também, né? É pela alma, pela cultura de cada povo. Mas aqueles encostos do Agreste ali, tem demais, tem demais isso aí. E cantando toada de verdade ainda.
P: E fazendo aboio antes. Porque, às vezes, eu vejo o aboiador fazendo um aboio curto e já entra na toada. Aí não aboiou, né? Ele fez a parte da vocalização, de chamada. Porque quando a gente vê filme da década de 70, o cara faz um aboio de dois minutos antes de entrar o verso.
R(2): Chamatise a chamada do gado. Hoje, é poucos aboiadores que aboiam pra poder fazer o verso. Eu mesmo tenho esse cuidado. Eu só gosto de cantar a toada ou fazer um verso de gado, se eu aboiar também.
P: Vamos fazer um. Vamos fazer um o quê? Ou uma toada que já existe ou uma toada improvisada, mas com o aboio na abertura.
R(2): Uma toada de Vavá Machado e Marcolino, Mudei meu gado da solta. Com o aboio na abertura. Pra começar, também, o aboio, não é todo mundo. Tem gente que sabe fazer o verso, faz o verso de gado.
P: Que é o poeta mesmo, né?
R(2): Faz o verso de gado, normal. Mas aboio é dom. Não é todo mundo que sabe aboiar, não. Eu desde de novo que sou apaixonado. Jairinho sabe aboiar, aprendeu a aboiar antes de saber falar. Mas eu, até hoje, eu não sei aboiar.
P: E o Vicente Jacó, não faz poesia. Ele só aboia, né? Não faz verso, né?
R(2): Ele faz um versinho ainda. Mas eu mesmo, assim, meu aboio é uma coisa sem…
P: Porque você é poeta. Você é poeta aboiador.
R(2): Eu faço um verso de gado fraco, mas faço. Agora Jairinho já tem o dom mesmo de aboiar.
P: Então vamos fazer uma coisa que vai ficar bonita. Pegar o contraste dos dois. O estilo de um e o estilo do outro.
R(1): Nós vamos fazer o seguinte: Eu vou aboiar e entro cantando a toada de Vavá Machado e Marcolino, eu e Paulo. O dueto.
P: Pronto, fica bonito.
R(1):Bom, ou então eu faço um verso que eu fiz pra Jacó ali, não sei se você viu.
P: Eu vi a missa toda.
R(1): Aí fica gravado isso aí.
P: Fica gravado, pronto. Como é que é? Começa com o senhor?
R(1): Aí como é? Vamos cantar a toada e depois o Paulo registra com o verso?
P: É, eu acho que ele quer cantar…
R(1): A gente pode cantar a toada.
P: Faz o aboio, e canta a toada. E depois canta outra toada dele. Você pode dividir a toada de Marcolino e depois ele faz a toada dele. Pode ir.
(Jairinho inicia o aboio livre)
Mudei meu gado da solta
Que o pasto estava acabando
Na subida da ladeira
Na sombra da quixabeira
Vi um vaqueiro chorando
Perguntei que é isso mano
É o touro preto baiano
Que está no chão se ultimando
O gado se reuniu
A bezerrama berrando
Vi a coisa diferente
Desconfiei da serpente
Me ajoelhei rezando
Quando a reza terminou
O touro se levantou
Saiu me acompanhando
Esse episódio passado
Que hoje estou relembrando
Foi o velho Nem Machado
Que há vinte anos passado
Tava o rebanho separando
Tava com ele esse dia
Que fiz essa poesia
Que hoje estou recordando
P: Aí você fez a primeira voz, você fez a segunda de cima mais aguda, né?
R(2): É.
P: Então, é... existe tipo de toada? Tipo toada de festa, toada de lamento, toada rápida, toada lenta, toada de seis linhas, de sete linhas, de... quais são as modalidades principais?
R(1): Toada e aboio, você pode fazer uma toada em sete linhas, pode fazer em seis linhas, pode fazer em décima, pode fazer feito soneto, em quartetos, vai depender da poesia que você estiver sentindo, quando você vai colocar. Mas tem... você pode fazer ela de várias formas.
P: Ontem mesmo eu vi um dueto do Pedro Brígido com... não sei se era Naldinho. E os dois estavam um perguntando em sete e o outro respondendo em seis. Eu vi, não estava combinado nem tudo em sete e nem tudo em seis. Um falava em sete e o outro respondia em seis. O mais comum é seis e sete.
R(1): O verso de gado é seis e sete, mas a toada não. Mas o verso de gado em si mesmo é seis e o máximo sete.
P: Máximo sete. Mas pode fazer uma décima também?
R(1): Pode fazer do mesmo jeito. Mas é mais pra toada, né!?
P: Mas para toada, toada que é fixa, que já estava escrita, que já tem o poema certo.
R(1): É, você vai gravar…
P: Então vocês cantaram essa do Marcolino. Era uma toada escrita.
R(1): Isso!
P: E vamos fazer um improviso para ver como é que vocês improvisam, aí?
R(1): Bora!
P: Vamos lá. Faz o aboio lindo para introduzir e a gente vê… Alguém pode dar o mote aí para a gente ver?
R(1): O mote… eu não sou muito bom de mote não.
P: Eu digo o tema. Eu dou o tema.
R(1): Eu gosto de cantar meio solto.
P: Pronto! Ótimo! Você manda aboio solto e dá toada solta. Então vamos ver só um tema aqui. Vamos ver qual é o tema aqui... A vida é sofrida, mas é bela. O tema. Não precisa nem usar esse verso. Mas só para você saber que o tema é esse. É sofrida, mas vale a pena. Sofrida, mas vale a pena. Esse é o geral. Vamos lá?
R(2):
Êh… Ô gado, ôi…
O vaqueiro se acorda
Na pancada da cancela
Bota a sela no cavalo
E depois vai se montar nela
Sempre vive nessa lida
Tem uma vida sofrida
Mas mesmo assim gosta dela
Ô gado… ô, ô, ôi…
R(1):
êh… O que é isso, gado?
Ô, ôi, Boi…
A vida é sofrida e bela
Esse é destino cruel
Na vida que vivo nela
Para Deus eu tiro o chapéu
E para vocês que filmaram
Eu vou lhe dar um troféu




RONALDO ABOIADOR
Entrevista com Ronaldo Aboiador
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: O senhor já trabalhou com gado?
R: Já.
P: Foi vaqueiro mesmo, de aboiar livre no meio do mato?
R: Já, já, já. Tirei leite, criei. A gente criou, não criava muito, mas criava uma vaquinha, duas vaquinhas..
P: Em que região?
R: Palmeirina.
P: E o senhor é de Palmeirina?
R: Sou de Palmeirina, a Serra do Quatí, município de Palmeirina.
P: E qual é a cidade mais perto que eu não sei qual é?
R: Mais perto dela? Angelim, Canhotim. Agreste,
P: E o senhor aboiava, fazia o que o Cícero Mendes chama de aboio à capela?
R: É, aboio livre. Aquelas vogais que não têm fim. Que é um forró. Que o cara pensa que não é um forró. É um forró. O cara vai com a sanfona e você puxa um forró com aquele aboio. Aí pode botar a zabumba. Eu fiz isso numa gravação que a gente fez aqui no Cais do Sertão. Apareceu todo mundo, aí o cara disse assim: “Vem aqui, Ronaldo Aboiador”. Aí eu fiz um aboio. Tá lá no túnel das origens, no Caio do Sertão. Eu fiz um aboio, e do aboio entrei com a Asa Branca. Aí entrou a banda, eu cantando…
P: Mas como introdução é mais fácil, porque o aboio às vezes fica com as notas, as vogais longas, e você não consegue botar muito ritmo em cima.
R: Exato. É uma introdução. Aí o cara faz uma introdução e sustenta um, digamos assim, como o Gonzaga dizia, um jogo de foles. Aí aquele aboio vai embora. Porque se você querer acompanhar o aboiador, não tem música que acompanhe, Porque ele varia de notas. Tá em sol, daqui a pouco vai pra ré, mi, fá…
P: Cícero Mendes diz que diz que toada é pra dois cantadores, dois aboiadores juntos, e quando é um cantador só é verso.
R: É, mas pode ser uma canção.
P: Pode ser uma toada pra um cantor só?
R: Pode. Eu fiz e botei duas vozes. Botei primeira e segunda no meu trabalho todinho
P: Se não Fver a segunda no dia (de um evento) faz um só, né?
R: Faz um só. Galego (Galego Aboiador) não faz? Com aquela voz monstruosa dele. Galego tem um gogó, viu?
P: Galego me parece bem agitado, gozador. Pelo menos o que eu vi no YouTube. Achei diferente, pois eu vi muito vaqueiro lá no sertão, sujeito manso, meio calado.
R: E outra coisa, é coisa feia um aboiador sem chapéu de couro. Eu sou revoltado. É boné, é esse chapéu branco de Sérgio Reis. Aquilo não existe. Um aboiador… Aquilo é ridículo. Eu dei muita lição em nêgo aí. Ai o cara diz "eu não canto com chapéu”. Tudo bem. Apois, invente outra modalidade. Você vai de terno, que o violeiro vai de terno. O cara goza do violeiro; o cara não pode gozar dos violeiros, não. A pessoa tem que ter conhecimento. Os violeiros são formados, são um pessoal preparado, preparado. São preparados, meu amigo. Eu digo porque sei. Pedro Bandeira Fnha três cursos superiores. Era advogado
P: Eu já entrevistei muitos aboiadores que cantam toada. Estou procurando também aboiadores que fazem aboio livre.
R: Faça verso, poeta, criaFvo.
P: Não. Aboio livre no sentido de só cantar a parte melódica de chamada de boi. O aboio no trabalho com o boi.
R: O bom é isso, o bom é isso. A Globo já me levou aqui para o sertão, para a gente aboiar no meio do gado. Eu chorei. Gado morrendo… eu chorei.
P: Jairinho disse pra mim que é o aboiador tem que saber aboiar antes da toada, tem que saber fazer a vocalização
R: As vogais.
P: Fazer as vogais antes.
R: Para poder fazer o verso.
P: Porque alguns aboiadores já entram direto no verso, e ele diz que tem que fazer a introdução toda do aboio.
R: Porque se a pessoa for fazer, mostrar o aboio e não mostrar pelo menos um pedacinho, é chato. Também se esFcar ele demais fica meio cansaFvo. Zé Lezim disse que segundo ele e Jessier Quirino não tem quem aguente 30 segundos de aboio. E aí eu disse: "Vocês dois fizeram botar um CD de aboio na praça”. Aí ele disse: “Vamos aboiar o tempo de um bêbado chupando caroço de uma manga”. Eles dizem que ninguém aguenta um concurso de aboio nem meia hora.
P: Ou seja, tem que ter o verso para chamar a atenção das pessoas.
R: O verso, é, pra chamar a atenção.
P: O aboio sem verso é para o boi, pois o boi não entende o verso, né? R: É pro boi, é mais pra tanger o gado. Eu já vi, quando eu era criança, com minha mãe em Palmeirina. O cara ia com uma boiada. Aí mamã perguntou "pra onde vai essa boiada”. E ele disse: “Belo Jardim”. Aí o gado se dispersou numa vazante. O cara (o vaqueiro) começou "Ê Ô”. Aí foi juntando, o gado foi voltando. Ele continuou e o gado aprumou tudo. Eu digo: "Eu não sabia que o gado compreende, compreende”.
P: Mas, se você não faz o aboio da chamada, já vai direto no verso, não seria melhor chamar de toadeiro, em vez de aboiador?
R: Toadeiro, é.
P: Quem me falou de toadeiro foi um lá de Serrita, de Exu ou de Serrita. Estava na pega do boi. Ele se chamou de toadeiro. Foi o único que não se chamou de aboiador, se chamou de toadeiro.
R: Eu fui numa festa em Parnamirim, pelo Sesc, fazer um aboio lá, e lá Fnha um pai e um filho, o filho até formado em agronomia
P: É Antônio Santana?
R: É isso! Mas rapaz, bom de verso, visse? Foi uma noitada bonita. Já conheceu algumas coisas de Vavá Machado e Marcolino
P: Já ouvi cantado muito por aí.
R: Quer fotografar os LPs deles
P: Posso fotografar. Antônio Santana, o filho, cantou algumas do Vavá Machado e Marcolino.
R: Pra mim não tem igual não, eles foram meus professores.
P: Eles aboiavam também, só a chamada do gado?
R: Eu até Fnha Vavá chamando o gado aqui, vi um dia desse. Eu só queria saber onde foi, Vavá chamando o gado.
(Ronaldo procura entre seus vinis).
Vavá chamando o gado, coisa mais linda.
P: E quando o senhor aboiava, o senhor chamava o gado também?
R: Chamava, mas o tempo foi que me ensinou mais, ficar mais práFco na chamada. Um aboio bonito é uma coisa linda.
P: Pelo que eu vi, o que é comum é o aboiador dar uma chamada de uns 10 segundos, e aí entra a toada.
R: Justamente
P: Foi aí que Jairinho disse: "Se o cara não faz a chamada no começo, o aboio fica pela metade. O senhor faz mais toada de 6 linhas ou 7 linhas?
R: 7.
P: Tem gente que faz de 6, né?
R: É.
P: O senhor está há quanto tempo em Recife?
R: Há 40 anos.
P: Veio trabalhar?
R: Vim trabalhar.
P: E aboiando também? Nunca parou não?
R: Não. Sempre eu achei uma brechinha, comecei, a turma foi gostando, eu fui entrando, fui entrando, e aí fui até pra Rádio Jornal. Eu queria fazer um projeto, pra falar de Luzi Gonzaga, falar sobre Asa Branca. Porque eu tive perto, eu tomei banho na casa do Luiz Gonzaga, eu vi as asas brancas, eu vi Gonzaga vivo, ele numa cadeira de rodas. A gente aboiou junto.




Da direita pra esquerda Armando Lôbo, Dantas Aboiador, Mané do Cego e seu filho, na casa de Dantas.
Entrevista com Mané do Cego e Dantas Aboiador
P = Entrevistador
R(1) = Mané do Cego
R(2) = Dantas Aboiador
P: Por que seu apelido é Mané do Cego?
R(1): Porque meu era cego.
P: Mas cego de nascença ou ficou cego?
R(1): Não. Antes de cegar, ele era mestre de obra, ele fazia tudo em construção civil.
P: E cegou como?
R(1): Nós fomos para o Maranhão em 1953, ali ele fez uma empreitada lá de uma casa, lá de um lugar chamado Santa Tereza, depois do Lago do Rodrigues. Só era casa de palha de coco. Aí ele fez uma empreitada lá para fazer a primeira casa de Rjolos, do delegado lá da vilazinha. Aí queimamos uma primeira caieira, eu com oito anos de idade, aí queimamos a segunda, e quando foi na terceira, de madrugada veio uma chuva e Rnha umas telhas no lastro. Era ele e mais dois companheiros, três companheiros. Aí a gente foi juntar essa telha lá, eles botaram fogo na caieira, aí quando o dia amanheceu, e pelejavam para ele beber, e ele não bebia: “Não, vou beber nada, isso não serve de remédio para ninguém.” Aí ele levou a chuva, num sabe? Aí quando o dia amanheceu, ele disse: "Rapaz, sabe que eu estou vendo um embaçamento, não estou vendo nada, só a cinza no mundo". Ele cegou. Devido à quentura, levou chuva… Aí ele abraçou a viola, que ele era repenRsta mas não cantava de viola. Chegou em Teresina, eu fui com ele lá para a Praça Saraiva.”Vai ser aqui, eu vou pedir a primeira esmola da minha vida, eu nunca pedi esmola”. De repente chegando um cidadão e ele fez um verso pedindo a primeira esmola e chorando. Aí o homem foi assim e voltou. Mandou meu pai contar a história dele, e ele contou. Aí ele meteu a mão no bolso, deu um dinheiro para ele lá; deu para comprar roupa para nós, deu para comprar uma viola para ele, e deu uma ordem para nós, diretamente, para ir para uma hospedaria de Fortaleza, Hospedaria Getúlio Vargas
P: Incrível, logo primeira pessoa que passou?
R(1): Foi, E a gente foi, ficou lá uns tempos, voltamos para Paraíba de novo.
P: Qual era a cidade da Paraíba?
R(1): Conceição do Piacó.
P: E o pai do senhor, qual era o nome?
R(1): José Pereira. Aí botaram esse apelido em mim de Mané do Cego. A primeira cantoria que ele fazia era comigo.
P: O senhor fazia dupla com ele?
R(1): É, eu fazia dupla. Comecei a cantar com oito anos de idade.
P: Mas o senhor foi vaqueiro também?
R(1): Fui vaqueiro.
P: (falando para Dantas Aboiador) E o senhor eu sei que era vaqueiro, por que eu vi i senhor aboiando o gado em um vídeo. Eu adorei o aboio que o senhor faz.
R(2): Lanim tem um um bocado de trabalho meu. Meu pai era vaqueiro, meu tataravô era vaqueiro, meu bisavô era vaqueiro, meu pai era vaqueiro, e eu não era vaqueiro de fazenda, assim, porque eu ajudava meu pai. Nós tudo vaqueiro. Eu sou feliz na minha vida. Eu ter conseguido essa profissão de ser poeta, porque, graças a Deus, na minha família, existe muitos poetas. Dos mais velhos tem nós dois, eu e Galego Aboiador. Mas já tem um bocado novo. Uma coisa que eu queria é que, esse povo conhecesse o que é o trabalho da cultura, do homem do campo. Isso aí é que é importante.Isso foi um dom que Deus me deu, porque nem saber ler eu sei. Eu só sei assinar meu nome. Viu? Graças a Deus. E eu me sinto feliz na minha vida. Tenho meu companheiro, cumpade Mané do Cego. Jesus me deu essa saúde. Só não vivo mais mió na vida porque eu Rve uma “perca" grande, vai fazer cinco anos em outubro que minha esposa faleceu.
P: Uma coisa que me chamou a atenção, foi quando Lanim me disse que o senhor faz o aboio tradicional mesmo, aquele autênRco.
R(2): Na hora, na hora ao vivo.
P: E ele disse que às vezes o senhor não faz a rima como os outros fazem, o senhor faz livremente com a inspiração, porque ele disse que às vezes tem vaqueiro que decora, faz tudo rimadinho, mas é tudo decorado.
R(2): Eu faço na hora. Eu tenho músicas decoradas, mas aquilo não é importante para mim. O importante é fazer na hora.
R(1): Nós fomos ao festival aqui em Potengi, quando nós chegamos lá disseram "Manéu, vocês vão ter que escrever um gênero pra fazer a abertura, uma sextilha”. Eu disse que não ia escrever, meu negócio era fazer ao vivo. Aí meu parceiro caiu na besteira e fez três versos. Os três versos que ele escreveu ele errou, e nós perdemos o primeiro lugar por isso, ficamos em segundo lugar.
P: O aboio é diferente da toada. A toada tem verso. O aboio é a chamada do boi. E tem aboio, o tradicional, que não tem nem toada depois. Você está trabalhando com gado, em cima do cavalo. Você não fica cantando verso, você fica aboiando.
R(2): Ele canta sim, mas é o aboio.
P: Mas ele canta menos verso e mais a chamada do boi, não é isso?
R(2): É, não é menos verso, é menos entoada, é um tipo de um improviso, que a gente canta, né? A gente faz o aboio no tipo do improviso, porque se cantar entoada, e não aboiar, não é o aboio, que o aboio é o encanto do vaqueiro.
R(1): Opa, Dantas, você ouviu falar da história do vaqueiro mole?
R(2): Não, mas aí você contando, eu concordo.
R(1): O vaqueiro mole vai em uma estrada. e sai uma rês. Ele não é bom no garrancho, aí: ”Ô, vaquinha, de Nossa Senhora, meu Deus volte pra estrada…”. Aí, quando tá num corredor: "Vaca da moléstia, eu te machuco!”. Não tem problema do gado sair. (risos)
P: Geralmente, pelo que eu tô observando, mesmo quando você faz uma toada, começa com um aboio, né? Agora, tem aboiador que eu vi, lá na região de Serrita, que já nem faz o aboio, já começa com a toada. Aí eu digo: esse aí não é bem aboiador, é um cantador de toada, um toadeiro.
R(2): É um toadeiro.
R(1): Você pode fazer também a toada e depois, no final, mandar o aboio.
P: Invertendo, né? Terminar com o aboio.
R(2): Eu Rve fazendo uns áudios, daí, pra Sergipe, lá pra Poço Redondo. Que eles me pedem. Às vezes, eu, tô de noite, quando vejo é o telefone tocando, o povo lá de longe me pedindo esse Rpo de coisa. Aí, eu vou mandar aquilo. Não é feito, eu vou fazer na hora. Mas aí, eu comecei em Rpo de cantando, cantando a entoada. Aí, o Eliezer, que é daqui do Juazeiro, mora lá, que ele me dá um grande apoio lá, muita força, aí, ele disse, não é assim, Dante, você e aboia primeiro. Aí, você canta a entoada, depois do aboio. Aí, quando chega na metade, você aboia. Aí, depois, quando no final, você aboia sem ser cantando, sem ser cantando. E aí, eu venho fazendo esse trabalho.
P: Como é que, no final, aboia sem ser cantando? Como?
R(2): O senhor quer ouvir, é?
P: Quero. Porque, pelo que o senhor falou, é assim: aboio, toada, aboio no meio…
R(2): O aboio primeiro, a toada na segunda. No tipo de entoada, a segunda. Não cantando em sistema de música, de quadra. É assim que faz. Neste momento Dantas e Mané começam a improvisar aboios seguidos de toadas. O contrate é bem grande entre os dois estilos. Dantas não usa métrica ou rima, e as estrofes são irregulares. Mané tem consciência métrica, e até parece às vezes cantar versos já feitos previamente. O improviso de Dantas parece uma salmodia, faz bastante recursão à nota tônica, uma espécie de canto gregoriano sertanejo. O de Mané do Cego é mais para repente e cantoria.
P: Uma pergunta que eu vou fazer para o senhor. Eu achei muito bonito vocês dois aboiando, porque são bem diferentes. O de Mané do Cego é rimado e o seu é livre. Como é que se chama esse aboio que não tem tanto verso rimado?
R(1): É o aboio livre.
P: E o aboio que não tem toada, só o aboio? Porque sujeito que está tocando o gado, o vaqueiro, ele às vezes não faz verso.
R(1): O vaqueiro, quando o vaqueiro é da nossa profissão, do garrancho, como se diz, você chega no mato, às vezes, cansei de chegar atrás de gado, e o cara solta um aboio, ou cantado, versejado ou só o aboio livre, e você escuta o gado descer. Esse menino meu aí - que depois que eu sou cirurgiado do coração, quatro safenas, era sanfoneiro de voar lá, mas não posso mais tocar, porque o médico proibiu. Mas nossa criação lá, ele não tange o gado, ele sai na frente chamando, se ele der dez a volta na vereda, o gado sai atrás dele. Depois que eu parei de lutar, eu chego na porteira, chamo o gado; se ele estiver perto de mim, ele corre.E ele chega ( o vaqueiro), junta tudinho só com o grito dele.
P: Eu falei com o Cícero Mendes, que é de Serrita, mas está morando em Serra Talhada. Ele diz que o aboio que não tem verso se chama de "aboio à capela”. Existe esse nome aqui também? Ele diz assim: aboio livre é quando o verso está solto, sem a métrica, foi o que Dantas fez. Aboio metrificado é do jeito que Mané fez. E aboio à capela, é aquele que é só a chamada do boi. É mais ou menos por aí mesmo?
R(1): É desse jeito.
P: É porque… cada um chama de um nome.
R(1): A gente que vive da luta - eu que fui operador do coração, quer dizer, meu coração, quatro safenas, o médico disse que é o melhor do mundo; agora, meus vasos sanguíneos podem ficar obstruídos só bebendo água.
P: Mas quando o senhor canta as artérias desentopem tudinho.
R(1): Quando eu canto, parece que as artérias vivem obstruídas é com tanta rima, viu? (Risos)
R(2): Eu estou satisfeito de vocês terem vindo na minha casinha de taipa, que é de uma pessoa humilde, eu, um poeta carente, eu. Mas é desse jeito, nem meus filhos moram comigo



VICENTE JACÓ - FILHO DO MÍTICO RAIMUNDO JACÓ

DAMIÃO JACÓ - NETO DO RAIMUNDO JACÓ

Entrevista com Vicente Jacó e Damião Jacó
P = Entrevistador
R(1) = Vicente Jacó
R(2) = Damião Jacó
P: O senhor nasceu na fazenda Araripe, onde nasceu ?
R(1): Lá no Araripe mesmo.
P: Na Fazenda Araripe, como o pai do senhor, Raimundo Jacó.
R(1): Eu nasci na Barbalha, mas vivia no Araripe.
P: Na fazenda mesmo.
R(1): É.
P: Aí o senhor nasceu na Araripe e depois morou aonde, até vir para a Serrolândia? Aqui é Serrolândia ou Araripina?
R(1): Aqui é Araripina. Eu morei em Bodocó. Passemos 14 anos dentro de Bodocó. (Damião questiona o tempo e Vicente remenda). 25 anos dentro de Bodocó. Aí no Ceará, não sei da soma do que eu passei no Ceará, não. No Ceará eu trabalhei um bocado de ano mai um rapaz chamado Zé Armando Moraes, que é do Crato. Gente muito boa. Não sei se ele ainda é vivo ou se já morreu. Não sei. Aí de Bodocó, eu vim direto para cá, para essa Serra. Ali, para a Serrolândia. A muié comprou esse pedacim de terra aqui, e eu vim mais ela pra cá.
P: Quantos anos o senhor conviveu com o seu pai, antes dele ser assassinado?
(Vicente é filho do lendário vaqueiro Raimundo Jacó. Damião é o neto)
R(1): Nenhum.
P: Era muito pequeno, o senhor?
R(1): Um ano e seis meses de nascido.
P: Mas quem matou seu pai foi Miguel Lopes mesmo?
R(1): O povo disse que foi.
P: Ele era de Granito, não é?
R(1): É.
P: Mas o senhor virou vaqueiro também?
R(1): Desde o menino que eu fui.
P: E aboiador?
R(1): Sim
(em verdade, não entendi a resposta de Vicente que está na gravação, mas esta foi afirmativa)
P: O seu pai era um aboiador famoso, né? Todo mundo fala que além de ser um grande vaqueiro, foi um grande aboiador. O senhor aboia com verso ou aboia só chamando boi e fazendo o que chamam de aboio esparramado? Como é que é o aboio do senhor?
R(1): O aboio do vaqueiro é diferente.
P: Não é aquele aboio de cantor de evento, é outra coisa, né?
R(1): É outra coisa.
P: O senhor pode fazer um aboio para eu ver? Um aboio como o senhor acha que é o aboio do vaqueiro mesmo, no estilo de aboio que o senhor faz.
Vicente faz um aboio seguido de uma toada sua, com letra em homenagem ao pai. Raimundo Jacó saiu Nem um aviso ele deu Ele entrou pela caatinga Um aboio penoso deu A terra ficou tremendo E o povo ficou dizendo: “Raimundo Jacó morreu"
P: Aí uma perguntinha: o senhor fez uma toada, né? R: Não, aqui é aboio mesmo, de vaqueiro mesmo.
P: Mas não teve verso depois? E esse verso de quem era?
R(1): É meu.
P: Pronto. Você fez o aboio com o verso.
R(1): Foi.
P: Mas geralmente, o aboio geralmente começa com a chamada, né, e depois é que começam os versos. Não é assim?
R(1): É.
P: O que você chama de aboio, é tudo, ou é a primeira parte que o senhor fala Êêêê…?
R(1): É tudo.
P: Incluindo os versos?
R(1): Certo.
P: Mas se você não aprendeu com seu pai, aprendeu com quem, então, a aboiar?
(Vicente aponta para o céu?)
P: Com o lá de cima?
R(1): Com um dote que ele me deu.
P: Teve um vaqueiro que me disse que se não fosse Jesus, não existiria o vaqueiro.
R(1): É verdade. É desse jeito.
P: Então aprende por inspiração mesmo, né?
R(1): É.
P: Agora, quando o senhor está aboiando, vendo um monte de bois lá, certo? O senhor fala essas palavras que o boi não entende…
R(1): Eu chamo tudim.
P: Você vai falando os versos para o boi?
R(1): Não. O gado acostuma.
P: Sim, mas o senhor fez verso aí, né? Os versos, o boi não entende.
R(1): Esse aboio que eu dei, eles entende tudo.
R(2): O gado acostuma com o vaqueiro também, né?
R(1): O gado acostuma com a gente.
P: Damião foi por causa do Frei Damião?
R(1): Não
(A mulher de Vicente diz que é devota de Padre Cícero, e Vicente dá a entender que não colocaria o nome dedicado a Frei Damião por causa disso)
P: Mas pode ser devota dos dois, né? Eu vi que lá em Serrita, o pessoal tem uma devoção muito grande por Nossa Senhora Aparecida.
R(2): É verdade.
P: Vocês dois também têm devoção por Nossa Senhora Aparecida, que é como se fosse a santa dos vaqueiros?
R(1): Tem um desfile aqui, uma carvogada de santo.
P: Aonde?
R(1): Aqui.
P: Sai da sua casa?
R(1): Sai daqui. Em novembro.
P: Qual é o dia de novembro?
R(1): Dia primeiro.
P: Jacó era um sobrenome?
R(1): É Raimundo Jacó.
P: E tem outro nome?
R(1): É o sobrenome mesmo de família. Minha família Jacó é grande. Aqui na Araripina, tem uma trinca aí, que é tudo num sangue só. Aqui em Fiaco (?), tem uns parentes nossos lá de Exu, que morreu aqui também nessa rua ali… Os mais velhos já se acabaram. Só tenho lá família mais nova.
P: E todo mundo aboia? Damião aboia.
R(2): EU canto o que eu já sei, decorado.
R(1): A família de papai, tudo é vaqueiro.
P: E aboia todo mundo?
:R(1) Tudo!
Damião então começa uma toada de 6 linhas.
Sou vaqueiro nordestino
Conhecido no sertão
Vivo na lida de gado
Pegando touro à mão
Pra correr dentro do mato
No cavalo campeão
P: Vou perguntar uma coisa dos estilos. Por exemplo, se uma rês fugiu, há um tipo de aboio, ou se a rês está nervosa, para acalmar… Tem tipos de aboio assim, cada um pra uma hora certa?
R(1): Até agora não vi ainda não.
P: E às vezes o cara aboia não sendo pro boi, tipo assim, pensando em uma namorada… ou não, é no trabalho mesmo?
R(1): É no trabalho mesmo. Nós vai falando com a rês devagarzinho, nós vai…
R(2): A inspiração vem, o caba…
R(1): Vai virando… o gado pisa o cabra fala isso, vai para a estrada… É assim. Vicente canta outra toada. Onde Vicente Jacó passa A fama dele aparece Chuva pra ele é sereno A barra do dia desce Moça fica apaixonada E os cavalos se enlouquecem Êê, ôô, boi… Ô Saudade!
P: usa-se muito saudade, né? Saudade é uma coisa forte no vaqueiro? Saudade de quê?
R(1): Do gado mesmo. Do galho mesmo, é?
P: Porque vai ser vendido… Mas saudade também de alguém de parente?
R(1): Às vêis o caba se emociona muito, meu amigo.
R(2): Lembra dos parceiros que já foram.
R(1): A lenda. O povo diz que nós somos a lenda. A lenda de Jacó. A lenda. O povo chama "a lenda de Jacó”. Jacó não tinha filho. Aí ele dizia que Jacó não tinha filho. Não tinha família, e depois a família apareceu ligeiro. Fizeram aquele parque todinho ali, naquela Serrita ali. Tem meio mundo de gente rica ali na Serrita. Ah, meu nome e o nome do meu pai. E o padre João Câncio. Quem afundou (fundou) ali foi o pai de João, não foi ninguém do outro mundo não, sabe.
P: Mas e o trabalho do vaqueiro mudou também, né?
R(1): Mudou.
P: Ainda tem trabalho como era antigamente?
R(1): É meio difícil. Aqui, pra nós mesmo, aqui acabou-se. Aqui não tem mais trabalho pra vaqueiro, não. Nós trabalha no Bodocó, com gado todo dia.
P: Aquilo de levar o gado, passar de uma fazenda pra outra. R: É, levava muito.
P: Hoje em dia quase não tem, né?
R(2): Não, aqui a gente trabalha mais dentro de roça.
R(1): No Bodocó tem. Serrita tem.
P: Vocês trabalhavam pra fazendeiro ou vocês sempre tiveram...
R(1): Ganhador, eu era ganhador.
P: Como é que é ganhador?
R(2): Chegar lá pra ir buscar, pegava e levava o boi.
P: Ah, assim, você não era funcionário, né? Era por empreitada, né? Não era funcionário da fazenda.
R(1): Não, não.
P: Era autônomo, né?
R(1):Era morador dos outros.
A esposa de Vicente então explica que moravam num terreno de uma fazenda de patrão e que depois ganharam do prefeito uma terrinha em Bodocó. Ela então vendeu o terreno e comprou este em Araripina, onde moram.
P: Quando tinha mais trabalho de gado a situação de vocês era melhor?
R(1): Ôxe, era melhor. Nunca faltou um pão, graças a Deus, quando eu vestia esse meu gibão velho.

Entrevista com Assis Vaqueiro
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: O senhor é de Serrita?
R: Eu sou daqui da região de Serrita mesmo. Mas eu nasci e me criei aí junto do Parnamirim.
P: Mas nasceu em Parnamirim, então?
R: Eu nasci na região de Serrita mesmo.
P: Ah, mas morou também em Parnamirim.
R: Morei. Fui vaqueiro em Parnamirim, fui vaqueiro em Alagoas, fui vaqueiro em Serra das Russas… Já me mexi por todos os cantos.
P: Hoje em dia está mais difícil ter vaqueiro tradicional assim como o senhor, né?
R: É verdade.
P: Porque eles botam tudo no caminhão, né?
R: É tudo no caminhão. Hoje está tendo muitos corredor…solta ele aí, na boca de um corredor e já sai acompanhando de moto, até chegar no ponto, né? Tem caba que vai de moto. Antigamente, nós saía daqui hoje… nós saímos daqui hoje, vamos supor, três horas da manhã, quando fosse sábado era que nós chegávamos. Na luta. Jogava ele no meio do mundo. Quando era no sábado era que nós encostava. Eu cansei de sair de casa, quando eu morava lá do outro lado, eu cansei de sair de lá três horas da manhã, quando era sete horas da noite, era que nós ía chegando. Mas Nnha dia de nós deixar cinco, seis boi amarrado nos alvo.
P: Nessa época, era trabalho por salário?
R: Era por cabeça de boi mesmo. Nós tava pegando esses boi a cinquenta conto.
P: Ah, não era salário não, valia pela pega.
R: Era. Nós damo aí umas três semanas de campo, nós pegamos um bocado de boi nesses alvo. Mas tinha dia que nós pegava cinco, tinha dia que nós pegava seis. Era assim. Quando começou o real, virou um caminhão bem aí do outro lado dessas, dessas crua (?) que tem ali. Virou um caminhão com vinte, vinte e dois boi. Aí saiu tudinho a, fugindo, ”E quem é que vai pegar? Quem pega, quem não pega?”. Um caba disse: "Aqui só tem pega é Assis Vaqueiro”. Aí eu peguei esses boi por quinhentos conto. Foi mesmo no tempo do real. Quando foi com quinze dias eu peguei tudinho. Tinha dia que nós pegava quatro, cinco…
P: E aí dormia no meio do mato?
R: Tinha vez que nós dormia até por um mato. Aí quando nós pegava, nós trazia pro matador que tinha aí, eles matavam, porque o dono era do Ceará, e aí já levava pronto, pro Ceará.
P: Hoje em dia ainda tá correndo boi, Assis?
R: Tô andando.
P: Quando eu vejo um vaqueiro aboiando, eu acho diferente de um cantor que canta aboio. Porque tem cantor que canta aboio em show, e tem vaqueiro que aboia trabalhando.
R: Trabalhando na luta.
P: Esse aboio de trabalho de vaqueiro é o mais importante para o pesquisador, porque é o aboio de verdade. Porque há alguns que cantam, fazem os versos bonitos e tudo, são bons cantores, mas eles não fazem mais aboio. Na minha percepção, eles fazem toada. Toada com verso. Às vezes improvisa, às vezes a toada já é memorizada. Mas o que eu fico interessado mesmo é com o aboio. Todo vaqueiro aboia?
R: Aboia. Quando pegam lá. Quando pega uma rês, vai buscar na roça, tem de aboiar.
P: E ele aboia cantando verso ou fazendo melodias?
R: É falando mesmo com o gado. E tem gado que, assim, quando eu lutava, estava chegando na roça, tinha gado lá que eu já chamava pelo nome e eles já me acompanhavam.
P: O senhor conheceu o Raimundo Jacó?
R: Não. Só o filho dele, Vicente.
P: E o senhor aboiava com verso ou apenas com o chamado do gado?
R: Eu chamo o gado mesmo.
P: Chama, mas também faz aqueles versos de toada, não?
R: Não. Às vezes é muito difícil.
P: Eu quero ver aboio de verdade. Porque hoje a pecuária mudou, né? Então, às vezes, se bota o gado dentro do caminhão e vai-se embora, né?
R: Vai-se embora.
P: E aí tem menos vaqueiro aboiando. não é?
R: É verdade.
(Neste momento, peço para Assis improvisar alguns aboios, e ele assente)
P: Quando o vaqueiro está triste, faleceu alguém, um companheiro, um amigo, algum familiar, etc. tem um jeito de aboiar diferente? Tem aboio que o vaqueiro faz só pela tristeza?
R: Às vezes tem. Às vezes o caba morre e aí o caba fica dizendo: "mas rapaz, meu amigo véi morreu. Aí tem caba que tira umas cantiguinhas com ele ainda deitado, na sua rede, na frente de sua casa… Aí o caba diz:
Ê…
Tô com a saudade do mundo
Que o mundo se acabou,
Meu amigo já morreu,
E aqui não volta mais não,
Eu fico com uma saudade
Do meu amigo de campo,
Que nós pegava boi ligeiro,
Ê-ê-ê-êeee, boizinho…ôooooooi
Eu agora me lembrei Lá da festa de Jacó, Me lembrei do vento forte, Ma madeira do incó (?), Mas eu agora me lembrei Lá da festa de Jacó, Mas vem aquele vento forte frio Falando de Jacó. Ôôô Bo-oooooooi. "Pega a estrada, bê, tê, tê, ê touro”. Aí com um grito desse o gado já conhece pra onde vai.
P: A maioria dos aboiadores que eu encontrei eles faz uma pequena chamada de boi e depois entra nos versos da toada, ou então o senhor fez agora, o senhor fez os versos da toada e terminou com a chamada de boi. Não tem um jeito de fazer sempre não cada vez é uma maneira diferente, não é isso?
R: É.




PASSO DE BASTIÃO INÁCIO
Entrevista com Passo de Bastião Inácio
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: O tipo de aboio da lida, geralmente é a chamada do boi, é aquele aboio vocal, não é o verso, certo? Hoje em dia, quando eu vou entrevistar aboiador, eles já vêm dizendo verso. Mas teve um do Ceará que disse: "Eu não digo o verso pra vaca, não.” Quem entende verso é ser humano, gente, não é vaca. Aí ele fez os aboios dele, mas usando a chamada do boi, que alguns chamam de "aboio à capela”, quando não tem verso. No Ceará, Mané do Cego e Dantas Aboiador chamaram esse estilo de "aboio pé-de-serra""
R: Só chamando o gado.
P: Quando é só o canto, sem os versos, eu estou tendo mais dificuldade de encontrar. Jairinho fez um improviso de um minuto, muito bonito. Eu gravei tudo. Aí eu digo: O senhor faz aboio de verso ou aboio de chamada de boi?
R: Não, de verso eu não faço não. E afinal, eu não sei nem se…
(Nesse momento, alguém entrou na sala e Passo parou de falar. Depois continuou)
R: Não sei nem se vai sair, porque eu me emociono demais.
P: Nessa minha pesquisa, o que está faltando é aboio assim, que não é feito para competição de verso, é aboio feito por quem vive na natureza, quem fala com o gado, com as árvores, com o céu. Eu já vi que pra alguns aboiadores, se não estiver trabalhando o aboio não sai. Você conseguiria fazer um aboio para mim agora?
R: Por que essa vida, pra mim mesmo, é amorosa demais. Tudo… Aí vem recordação de tudo.
(Neste momento, Passo pede que sua filha lhe traga o chapéu de couro)
R: Quando eu pego o chapéu de couro e cheiro, eu só me lembro das madrugadas que eu passei daqui pra ir à Missa do Vaqueiro.
P: Ia a cavalo?
R: Ia a cavalo, sim.
(A filha de Passo chega com o chapéu, e ele o veste)
R: Cada chapéu tem um estilo
P: Este é estilo, Serrita, estilo Salgueiro, estilo Ceará?
R: Parnamirim, Terra Nova, que é onde ele é feito. EU tenho outro mais velho, que o arreio foi nós que fez.
(Passo pega o outro chapéu nos leva ao pequeno celeiro da casa. Chegando lá, pega um chocalho (guizo) e começa a aboiar. Quando ele termina, eu lhe pergunto se há aboios diferentes para cada tipo de ocasião. Ele me mostra alguns exemplos rápidos. Depois começou a falar)
R: Uma vez eu tava no campo, e sabia que era pra pegar duas novia (novilhas). Graúda, as novia. Aí, topei com elas. Aí, pra correr com uma, perde a outra. Eu vou traquejar. Aí saí tangendo elas, todas as duas sem chucai (chocalho). Aí caminhamo um pouco, a mais violenta saía por um caminho assim… a outra bem calma, e eu falando “Vai boi, ô, ô rrôooa…”. Aí a mais braba fazia assim e sacudia a cabeça. Eu fui ajeitando até que consegui passar aqui e deixar lá na fazenda.
P: O aboio é mais pra chamar a rês que está se desgarrando ou é pra acalmar ela ou os dois?
R: É os dois. Isso tudo eu aprendi com meu pai. Porque ele foi vaqueiro, e o povo mangava, porque muita gente acha que pegar boi é montar o cavalo e pegar daqui praí, mas não é não! É resolver a luta. Entendeu? Então, um dos vaqueiros brabo que foi do conhecimento dele. O irmão dele mangava de papai. Aí, no campo, tinha uma bezerra do pai dele pra tirar da vaca, que tava mamando. Aí ele passou a tarde tentando e não resolveu nada. Aí meu pai andando no campo, chegou, traquejou com ela e botou no curral. Aí não resolveu a luta? Correu, correu não fez nada. Aí foi, traquejou, ela entrou.
(Traquejar aqui parece ser sinônimo de lidar com traquejo, incluindo o auxílio de um aboio)
R: A rês braba, a gente acalma ela com um aboio; não é pisar por cima, não. (…) Você também tá renovando a sua vida no campo. Do que fez, ô coisa boa. Aí vem aquela inspiração bem forte: (aboiando) “Ôooo,, gadinho, ôooo, boi, ê ô….”.
Passo de Bastião Inácio seguiu a entrevista dando exemplos de aboio. Alguns destes exemplos estão transcritos no presente estudo. Ao final de nosso encontro, ele cantou uma toada de Vavá Machado e Marcolino, dupla que é, certamente, a maior referência de aboio e toada no sertão (se considerarmos músicos profissionais, com carreira fonográfica, inclusive).


JÚLIO DUQUEIRA
Entrevista com Júlio Duqueira
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: O senhor é vaqueiro aboiador?
R: Não.
P: Nunca aboiou?
R: Não. Eu aboio com o gado, tanjo o gado.
P: Com o gado, tangendo gado?
R: É.
P: Mas isso é uma forma de aboiar. O senhor não faz, é verso, né isso?
R: É, verso eu não faço.
P: Mas faz aboio de chamar o gado e tudo?
R: É de chamar o gado. Ui da vaca, ui ui ui ui vaca (entoando melodia de aboio), é o aboio que eu sei de chamar o gado. Agora o verso é pra poeta, eu não sou.
P: O verso, ou seja, a toada o senhor não faz, mas o aboio o senhor faz porque o senhor chama o boi.
R: Chamo o gado.
P: Como é que o senhor chama? Chama cantando ou chama só falando?
R: Chama, pode chamar no gado. Aboiando com o gado. Ô vaca, ôi vaca, vamo viajar vaca, ô ô ô ô ô...! Êi vaca mansa bonita, ô ô ô ô ô…! (entoando melodia de aboio). Hoje eu não estou bem próprio, porque eu peguei um problema aqui na garganta, e eu tô meio rouco ainda. Mas o senhor ainda tem sorte. Se fosse 20 dias atrás, eu não fazia isso. Eu tava tapado. Eu tava no tratamento.
P: Mas o senhor chama o boi cantando.
R: É como eu estou dizendo aqui. O verso eu não faço. O verso de gado eu não faço. Porque aí é pra poeta.
P: O verso, sim. O verso eu já pesquisei muito. Estou vendo agora a chamada do boi.
P: Tu aboias? (Dirigindo-se à outra pessoa presente, um filho de Júlio) R (filho de Júlio): Não. R (Júlio): Ele não. Ele também pode falar com o gado. Agora fazer o verso... Se a gente fosse fazer, até fazia; mas é porque ninguém tem essa profissão de fazer o verso. A gente tem a profissão do tempo que a gente vem, que não tinha verso de gado, não tinha poeta; tinha vaqueiro na serra, vaqueiro no sertão, pegando o boi. Amarrando o boi. Tangendo o boi com a voz do vaqueiro tangendo o gado; não era fazendo o verso.
P: É isso que me interessa. Exatamente isso. Porque eu entrevistei muito poeta que se diz aboiador, mas que nunca trabalhou com boi. Esse não é o aboio. O aboio é de quem trabalha com...
R: O senhor está pesquisando vaqueiro.
P: Isso! Vaqueiro aboiador. Não é cantor de aboio. Cantor de aboio.
R: O poeta que chama. Chico Justino, Cícero Mendes.
P: Eu vou entrevistar Cícero amanhã. Justino eu já entrevistei. mas Justino não é vaqueiro.
R: É poeta.
P: Agora Léo Aboiador é vaqueiro. Entrevistei ele. E é poeta também. R(filho de Júlio): É lá do Granito, né?
P: É, de Granito. R (Júlio): Amigo da gente.
P: Entrevistei também aqueles de lá de Granito. Pai e filho, Antônio e...
R: Antônio Santana.
P: Isso.
R: Todo mundo aqui conhece.
P: Cabra gente boa.
R: Se eu ligar pra lá, ele chega aqui num instante. Dê pro que der, ele chega aqui. É meu amigo.
P: Os dois são gente boa demais. Passei a tarde com ele lá. Eles cantaram em dupla e tudo. Agora, eles são poetas também, né?
R: São bons.
P: Eles são poetas, mas eles também soltaram o gado, pegaram o cavalo e fizeram aboio trabalhando, para eu ver.
R: Trabalhando com o gado.
P: Que é diferente. Antônio disse que com o gado é diferente. Porque o gado não entende as palavras. Então, não tem que fazer versos para gado, não é?
R: É verdade.
P: O senhor só faz o canto do aboio, da chamada do boi, trabalhando? Descansando, lembrando do passado, alguma tristeza, não se faz aboio?
R: Não. É no trabalho mesmo. No trabalho do gado. O trabalho do gado é um, o trabalho da roça é outro. O trabalho de você tá no manejo do gado aqui pertence à luta do gado, mas o aboio do gado certo é aquele que vai tangendo o gado.
P: Vários tipos de aboio, cada um de acordo com o ofcio?
R: Exatamente.
P: E o senhor pode dar um exemplo?
R: Não.
P: É por causa da garganta que está mal, não é?
R: Tá complicado. O médico até que falou quanto menos eu conversar, melhor.
P: Lógico, lógico. Eu não poderia fazer essa pesquisa sem entrevistar o senhor, porque o senhor é uma lenda já aqui. Todo mundo fala do senhor.
R: Eu já fiz várias entrevistas aqui. Muitas, num foi pouca. Mas, é aquela história, aqui não tem vexame pra nós. Eu tava hoje aqui esperando os senhores. Aqui, o dia é para isso. Aqui esteve agora, não tá com 1 ano, teve Daniel Gonzaga com a tropa dele aqui. Aí ele tava com dúvida... eu digo: “Não, seu Daniel, eu não sou morador, não sou mandado aqui. Aqui nós arma a rede aqui. Só não tem mulher, que minha mulher faleceu faz uns 3 anos e eu não botei outra… Mas aqui não tem apelo, eu recebo vocês com os braços abertos. “-Mas eu queria que fizesse assim, pode fazer?" Posso do jeito que quiser, tô aqui para ouvir vocês. Hoje eu não posso cantar, mas pode perguntar da sua entrevista.
P: Então, por exemplo, o senhor reconhece a diferença entre aboio e toada?
R: Reconheço.
P: Pode dar uma definição de aboio e uma definição de toada?
R: Posso. O aboio é esse. O aboio da toada é esse que chama-se o poeta fazendo o verso. O aboio do vaqueiro que vai tangendo o gado, ele não tem a lógica de fazer aquele verso. Ele vai tangendo o gado pela luta dele. É assim. Falando com o gado assim: "Vaca ô, ôi vaca, ôôôô.." (entoando melodia de aboio). É isso que o gado atende. Esse verso do poeta, aquela chamada, o gado não entende que ele não veve disso. Agora, aqui tem vaca minha, aqui; se eu fizer essa toadinha que estou chamando aqui, elas vem tudinho. Se eu for fazer o verso, ela não sabe nem o que é. Agora quando eu chamo "vaca fulana" , ela vem pelo nome. Vem pelo nome e pela toada que eu chamo ela.
P: E tem a chamada quando você quer amansar, também quando quer evitar que a vaca fuja, que escape. Em cada situação tem um aboi diferente?
R: Tem o tratamento do gado. Chama-se executar o gado.
P: Executar o gado.
R: Você dar no gado, espancar o gado… o gado não quer isso, o gado não amansa nunca. O gado quer o carinho, chamar pelo nome. Olha que é o saco de sal aí. Olha os coxos ali de botar para o gado. Quem for brabo vai amansando. Aquela mais mansa vem e aquela braba vem encostando, quando vê tá tudo mansa, com o carinho do vaqueiro.
P: Eu entrevistei um vaqueiro que disse que às vezes aboiava — sentava assim na varanda, como o senhor, assim, e aboiava. Quando ele estava triste. Ele sentava assim na varanda dele e começava a aboiar, lembrando de alguém que morreu.
R: Exatamente. Isso acontece.
P: Ou seja, além do trabalho com o gado, também por lamentar, por lembrar de algo…
R: De querer fazer e não puder mais; cair na idade… tem qualquer problema, vê o gado passando por lá, vê um amigo dele passando com o gado, aquilo dá uma recordação grande.
P: É, aí ele quer recuperar isso aí com o canto dele.
R: Para desparecer a mente. É isso.
P: O senhor não chegou a conhecer Raimundo Jacó, chegou?
R: Conheci o Raimundo Jacó. Até ainda hoje eu estava aqui conversando com um rapaz…
P: O senhor era criança, praticamente.
R: Era criança de 9 a 10 anos. Conheci ele. Conheci o Miguel Lopes, da suspeita, que matou ele.
P: Matou mesmo ou é suspeita?
R: A Suspeita, mas o caso é todo quase... verdadeiro, sim. Mas quando tem aquela história, modo das lei, a gente não viu, não prova, fica só suspeita, né?
P: Não tem prova material, mas vocês mesmo sabem que foi ele? Inveja, né?
R: Inveja.
P: Agora, é engraçado, o vaqueiro geralmente é muito religioso. Acredita em Deus, gosta da Virgem Maria, dos santos. Para ter um invejoso é difcil, né? Eu não entrevistei um vaqueiro que não fosse temente a Deus.
R: O vaqueiro que não tiver Deus no coração, ele não é vaqueiro. Ele é um terrorista inventado. Porque o gado é uma benção, para todos os sentidos. O gado é abençoado por Deus. Aí você tratar, toda hora que tratar com o gado "diabo, moléstia do velho, cão”, ô rapaz, o nosso senhor não quer isso com o bichinho, não. Ele não quer com nada, quanto mais com o gado.
P: Mas aí e quando o senhor tem que matar o boi… você às vezes mata para vender? Ou não, quem faz isso é um açougue, é um matadouro, né?
R: Aqui nós chamamos de "vender o boi para o abate".
P: Para o abate, sim. Vocês ficam, às vezes, tristes, né?
R: Ave Maria, eu não quero nem ver...
P: Porque, se eu não me engano, foi o Léo que disse que, na hora do abate, ele troca e faz abate do boi dos outros, o dele, não. Porque ele sente.
R: No ano passado, isso aconteceu aqui, nesse pé de pau ali. Cortei até as galhas de pau para não inventarem mais de matar boi aqui. Eu vendi o gado aqui. Aí, quando eu vendi, o rapaz estava aí e foi e disse: "Domingo de manhã eu chego cedo e mato essa vaca". Eu digo: "Opa, não aceito, não. Ah, nada não, porque não tem problema, tal, tal. Não, não faço isso, não, porque eu já comprei." Aí eu disse: "apois, você vai... Essas duas vacas que eu lhe vendi, você vai matar essa daí e a outra já não mata, porque você vai ter... vai querer matar ela amanhã. Não tem mais como defender, mas também tem uma coisa, não conta comigo aqui, não, que eu me retiro". Fui lá para outra fazenda minha, lá fiquei. Aí quando cheguei aqui, já tinha tudo resolvido. Aí, matar o gado enquanto é meu, não. Vejo, não; quero nem ver!
P: Mas quando você sabe que vai para abate, dá uma tristeza, né?
R: Grande. Olha, o rapaz estava dizendo para mim, ainda agora, lá do São Francisco, domingo vem me comprar vinte vacas. Eu vendo, o gado, por causa que eu estou vendo as crises de inverno, muito fraca para nós; e o gado é muito. Mas aí eu vendo é o seguinte. Quando eu vendo, eu digo, "Deus tome de conta, não quero nada mal. Agora, não quero ver nenhuma ser destruída, eu vendo. Lá, pode fazer o que quiser, pode matar. Agora na minha fazenda, não. A natureza não dá. Eu sou amante do gado.
P: E amante do cavalo também, não?
R: Opa, demais, né? É quem resolve a luta do gado.
P: O cavalo é seu irmão, né?
R: Claro, isto.
P: É como se o boi fosse seu filho e o cavalo seu irmão?
R: Mesmo caso, pronto. O boi é meu filho, o cavalo é meu irmão. O cavalo vai pegar o boi. O cavalo ainda está sendo mais do que o boi, porque o boi está bravo lá no mato, mas o cabra vai no cavalo pega ele e traz. É verdade sim senhor.
P: Qual foi a viagem maior que o senhor já fez para levar o gado de um lado para o outro?
R: Para levar o gado de um lado para o outro?
P: Sim.
R: O gado daqui para eu levar o peso maior que eu achei foi num ano de seca eu tirar para o Ceará, lá para Abaiara, perto de Milagres.
P: Demorou quanto tempo?
R: Demorou 11 meses lá.
P: 11 meses?
R: 11 meses para poder voltar, que aqui choveu.
P: Eita! Eu encontrei o Léo, o Léo é jovem, né? Bem jovem. Ele disse que chegou a fazer uma leva ainda, trazendo do Ceará, mas aqui de perto, Barbalho, não sei, para cá. Ele disse que nunca mais fez, porque hoje em dia é caminhão e moto, né?
R: Exatamente. Hoje a coisa se torna fácil demais e se torna difcil. Porque quando eu vejo um vaqueiro com uma boiada de gado montado em uma moto, eu já digo "não, não dá para mim."
P: Esses vaqueiro de moto não aboia, não.
R: No jardim tem o doutor, o doutor Fernando Luz. Ele diz logo: "O gado meu, uma moto pode acompanhar ela sim". Dois ou três vaqueiros no jeito, montado em seu cavalo, todos os arreios de vaqueiro, o alforje na cela. Aí um carro, uma moto, pode acompanhar sim. De modo que um problema qualquer, uma rês adoeceu, vai voando e tal.
P: Vai pegar um remédio, uma coisa…
R: Mas vaqueiro dele, doutor Fernando, pra chegar de moto, ele não aceita.
P: E o barulho do motor e tudo, não deixa o gado nervoso, não?
R: Esse não é um problema não. É porque o vaqueiro ficou para andar montado em seu cavalo, tangendo o o gado.
P: O que diminuiu o papel do vaqueiro foi justamente quando começou a haver uma certa mecanização, aí tem caminhão, tem tudo… Porque em toda lida, o principal era o transporte do gado. Tem o cuidar do gado e tem o transporte do gado. Mas cuidar, você acorda de manhã e cuida. Mas pra ficar onze meses viajando com o gado, tem que entender de boi mesmo. Então, esse é que é o vaqueiro. Hoje em dia, pode ter gente que cuida de boi, mas não é vaqueiro.
R: Não é vaqueiro. O vaqueiro que cuida de boi no cocho, botando boi para engordar no cocho. Ele é um zelador do boi, ele não é vaqueiro.
P: É, zelador do boi. Administrador do boi.
R: Exatamente. O vaqueiro é esse que pega o cavalo, sela o cavalo, veste seus couros. "Pra onde vai?" "Eu vou pra tal canto buscar gado, fulano." Pra entregar aqui., amanhã eu vou pra tal canto buscar gado, no seu cavalo com seus couros, seu alforje na sela, seu trocado no bolso para fumar, para tomar uma, porque o vaqueiro todos gosta de tomar uma, que nós bebe muito. Mas vaqueiro... "Ah, sou vaqueiro de doutor fulano de tal”; e só botando um bacieiro de comer no cocho para o boi, "Não, você é zelador do boi". Mas vaqueiro tem um nome, né?
P: E vaqueiro que é vaqueiro tem que cantar, né?
R: Exatamente. Ele tem que ter a toada do gado.
P: Eu não vi nenhum desafinado, sabia?
R: Não, exatamente.
P: Os vaqueiros, é o dom de Deus mesmo, né? Tudo afinadinho.
R: É o dom do vaqueiro mesmo. Aquilo é o dom que Deus dá. É por isso que todo mundo não dá para vaqueiro. Hoje quase todo mundo — modo da pega de boi—, todo mundo quer ser vaqueiro, mas não é.
P: O Raimundo Jacó aboiava, né? Diziam que aboiava bem.
R: Ele não era de fazer verso. Ele era aboio simples, tangendo o gado.
P: Sim. O aboio tradicional mesmo, pra tanger o gado.
R: Exatamente. Pra tanger o gado. Não era desse que fazia o verso do poeta, Raimundo, não. A voz boa no mundo só teve de Raimundo Jacó. Ele dava uma chamada aqui e estremecia o mundo aí. A voz limpa.
P: É mesmo…
R: Ele tinha um xodó com uma mulher lá do pé da Serra do Barbalha, chamada Maria Bezerra. E tinha um vaqueiro velho lá, vaqueiro da família de seu Santos., chamado Zé do Mole. Aí o Zé do Mole queria também um xodó com Maria Bezerra.; aí Raimundo Jacó vinha com um xodozinho com Maria Bezerra, né? Aí Raimundo Jacó foi e fez um verso com ele mesmo.
Encontrei Raimundo Jacó
Na ladeira da Santa Rita
Maria Bezerra na garupa
Uma cabocla até bonita
O pobre do Mole atrás
E o Jacó fazendo fita.




CICERO MENDES
Entrevista com Cicero Mendes
P = Entrevistador
R = Entrevistado
P: Você também trabalhou com gado?
R: Sim, sim. Minhas raízes são rurais. Eu, de fato, fui vaqueiro. Nasci literalmente no curral. Mas aí a gente tinha um objetivo de estudar.
P: E tu começaste a cantar quando estavas trabalhando na...
R: Na roça. Desde os oito anos, eu tenho uma relação com o rádio porque meu pai era ouvinte de programas de rádio culturais. Ele levantava às quatro horas da manhã, ligava o rádio para ouvir programas de cantoria de viola na rádio de Cajazeiras, na Paraíba, na rádio de Juazeiro do Norte, que era o poeta Pedro Bandeira que fazia.
P: Pedro Bandeira morreu faz uns quatro anos, né?
R: No período da Covid. Vai fazer cinco anos agora, dia 23 de agosto de 2025. E aí eu tinha essa relação. Eu gostava daquilo. Gostava de ouvir. E eu ouvia e eu aprendia aquilo tudo que os poetas faziam.
P: Mas você aprendia mais com os poetas que cantavam toada ou com o vaqueiro que aboiava?
R: Com os dois. Porque, hoje não, mas para aquela época meu pai era poeta. Para o que as pessoas entendiam naquela época. Hoje a poesia tem outro... outro viés, que precisa ter um pouco de conhecimento para chegar até ela, para de fato ser intitulado como poeta; e tudo isso vem da raiz do meu pai, o rádio, ele aboiando no curral.
P: E você de cedo aboiava também no curral, aboiava em cima de cavalo, tangendo gado, tudo?
R: Sim. Meu pai terminava de Erar o leite - eu estava ali com ele - , ouvindo o rádio. Ele soltava as vacas, a gente levava para o roçado. Eu fazia isso com os meus oito anos; porque eu consegui entrar na escola só depois dos nove anos. Eu não queria saber de… de escola. A minha ideia era a roça e o gado. Meu pai era um agropecuarista da região, e eu estava ali todo dia na labuta. Se ia para a lavoura, era cantando na lavoura. Se ia mexer com o gado, era cantando. Aí meu pai mandou... o pessoal da região, todos diziam: "Olha, esse rapaz vai ser bom vaqueiro.” Aí meu pai mandou fazer um terno de couro e eu achava aquilo fantástico.
P: E você já fazendo poesia ou era mais o aboio vocálico?
R: Não, eu já fazia o mesmo. Primeiro eu comecei a cantar o que os poetas faziam, os violeiros… E depois eu, dentro da métrica do poeta, eu comecei a fazer coisas minhas.
P: Sim, mas nessa época ainda era repente, cantoria, ainda não era bem o aboio. Como é que você define o aboio tradicional e o aboio de hoje?
R: Olha, o aboio tradicional, ele tem um viés ligado aos países árabes. Uma questão religiosa. Durante muito tempo os aboiadores tinham essa linhagem, essa linhagem desse aboio. Como é algo que não era visto pelas gravadoras, eles tiveram que mudar essa linguagem.
P: Essa ligação da religião muçulmana, o árabe cantava nos minaretes - até Câmara Cascudo fala isso -, essa passagem do canto religioso para o canto na natureza, a natureza como religião também, né? Deus, a criação, a natureza. Mas há uma passagem… João Monteiro Neto lançou um livro sobre aboio, e nesse livro ele fala sobre a origem do aboio na Índia, mas justificado de maneira imprecisa, um tanto especulativa.
R: Ele está mais nos países árabes e tem a ligação com Portugal; nós temos uma ligação muito forte com Portugal através do poeta Bandarra.
P: O trovador das profecias.
R: A gente tem essa ligação dele fortissima. Principalmente, porque, o poeta aboiador da Bahia, se você for observar a linguagem dele, é diferente da nossa.
P: A referência a Bandarra está onde?
R: Ela está aqui.
P: Há alguma obra de Câmara Cascudo ou de outro etnógrafo que fala disso?
R: Não. isso é conhecido… é uma pesquisa relacionada a Ariano Suassuna. E em algumas pesquisas minhas, eu concluí que o Pajeú - que é aqui onde a gente está em Serra Talhada, que é o centro do Pajeú - , o Itaparica, o Moxotó, o Sertão Central, o Sertão do Araripe, o Sertão de São Francisco têm muito essa ligação com o ideal de Bandarra.
P: Que é o messianismo, né, a redenção, o quinto império, a volta de Dom Sebastião.
R: Isso. Ela tem muito essa ligação, principalmente o Sertão do Pajeú, ele tem muito essa linguagem voltada para Bandarra. E qual seria essa linguagem? Seria o desenvolvimento da sextilha, porque o verso de quadra, ele está mais naquele período da União Ibérica, que junta Portugal com a Espanha, porque a Espanha já tinha esse desenvolvimento. E entre Espanha e Portugal nós temos a famosa sextilha, que é de fato o que o aboiador… Existe a diferença entre aboiador e cantadores de violas. São duas linhagens diferentes, mas com uma praticidade próxima uma da outra.
P: Agora, o aboio vocálico,
R: O aboio solto “ôôôô…"
P: Sim, chamada do boi não tem sextilha porque não tem verso. Assis Vaqueiro me disse...
R: Aquele aboio ali está baseado lá nos países árabes,
P: Mas não na Índia…
R: Não, não na Índia.
P: João Monteiro Neto diz que em Bizâncio os árabes pegaram dos indianos, mas não apresenta prova alguma.
R: Tem essa ligação de Bizâncio por causa da questão da igreja ortodoxa, mas a linguagem, ela se concretiza ali com os árabes, porque quando o aboiador faz “ôôôô…”, é uma adoração. Já aqui, é para trazer o rebanho.
P: Você chama de aboio solto?
R: Isso. Cada animal conhece o aboio do seu vaqueiro. Eu posso chegar aqui, ter uma roça e posso gritar o dia todo!
P: Júlio Duqueira chamou o aboio solto de "aboio de vaqueiro", e chamou outro aboio de "aboio de poeta".
R: É porque essa definição de aboio solto, aboio de vaqueiro, aboio de poeta, de fato, cientificamente, ela não existe. Existe aqui essa separação do aboio solto - que em algumas regiões eles chamam "de capela" - …
P: Lá em Bodocó me disseram “capela”. Falando sobre, voltando aí, falando sobre essa questão que hoje a maioria dos poetas já larga no verso.
R: É, mas à capela, é aquela que eu e outro poeta canta na primeira e na segunda voz sem nenhum instrumento musical.
P: Esse é o "à capela", ou seja, uma toada a dois.
R: Isso.
P: Literalmente é toada, porque é "entoada", os dois estão entoando juntos, né?
R: Ela é toada porque é primeira e segunda voz, e ao mesmo tempo ela é capela porque não existe nenhum instrumento musical ali pra acompanhar eles. Não existe uma tonalidade, muitos deles nem sabem que nota que eles estão, tá? E aí, o aboio solto vaqueiro é pra trazer o gado.
P: Esse é o mais tradicional, né?
R: É o mais tradicional.
P: Esse quase ninguém mais faz, viu? Pelas minhas pesquisas, todo mundo já entra direto no verso. Porque o que é que eu notei quanto à forma? Às vezes há o aboio solto de introdução, aí entra uma toada e finaliza depois da toada com um pedacinho de aboio solto, mas às vezes não são nem cinco segundos de aboio solto.
R: A gente tem essa referência aí. A gente não faz nenhum verso sem antes fazer o aboio. Entendeu? Porque o aboio, é como se ele estivesse se alimentando, fosse uma máquina e você estivesse alimentando ela e esquentando ela pra ela dar o resultado do verso. Porque dentro daquele aboio ali, você está pensando e analisando o que vai sair, entendeu?
P: Ou seja, composição em tempo real, enquanto você aboia. Jairinho faz aboio antes.
R: Faz.
P: Mas eu entrevistei aboiador já vai direto no verso, ou seja, que decorou. Repete o que decorou, não é?
R: A gente usa muito isso no aboio há vinte e cinco anos. (em dupla com Chico Justino)
R: Qual é a ideia de dupla? Primeira e segunda voz. Mas eu com Chico Justino somos a única dupla em que os dois fazem a primeira voz.
P: Vocês trocam.
R: Mas, voltando aquela questão, hoje a maioria dos poetas já larga no verso. É preciso ter muito cuidado nisso daí, porque ele deixa de ser aboiador para ser um cantador de viola ou de toada. Mesmo que ele não use a viola, mas pela identidade do que ele faz é o que dá a entender; e é isso que tem acabado e a gente tem esse cuidado para manter a idetidade.
P: A toada não quer dizer necessariamente que é cantada em dupla, porque eu também já ouvi em depoimentos gente dizendo que é "toada" porque canta-se “entoado”, então teria que haver duas pessoas para fazer uma toada.
R: Isso, toada é duas; mas uma pessoa só pode cantar ela, porque já é uma composição escrita. Um verso, por exemplo, eu estou ali olhando os vaqueiros chegando. E aí o cara di “é agora!”. Ou então eu cheguei de viagem, eu não sei nada do que está acontecendo aí, o cara só me levou lá…
P: Aí é toada de improviso…
R: É. Aí eu digo “-traga aqui”. E aí o pau cai a folha aí, porque ele tem que ter conteúdo verbal para chegar lá. E aí eu começo:
“Ê.ê.ô.ô…"
A vaqueirama chegando
e a todos quero abraçar.
Vaqueiros de todo canto,
que veio hoje comemorar.
No seu cavalo selado,
doido para correr com o gado,
e a missa vai começar.
Aí o outro vai e diz:
Ê.Ô…
E a todos vou abraçar,
que chegou aqui agora
vaqueiro de todo canto,
que pega boi sem demora.
Todos cheguem para cá,
que a missa vai começar,
pois aqui chegou a hora.
Ê, oi...
Aí segue:
Ô.oi…
Todos cobertos de glória.
nesse trabalho fiel.
Vaqueiro de todo canto,
agradeça a Deus do céu.
Viva a nossa cultura
e o vaqueiro de bravura,
pra todos 1ro o chapéu.
R: E o conteúdo tem que chegar.
P: Essa aqui você está improvisando ou está escrito?
R: Não, aí é improvisado.
P: Então tem alguma definição, tipo toada de improviso e toada escrita?
R: Isso que eu estou fazendo é chamado ou de “repente" - se fosse violeiro - , mas como é aboiador, é verso de aboio.
P: Ou verso improvisado.
R: Ou verso improvisado.
P: E quando já está decorada é toada composta?
R: Aí se eu for cantar uma toada, que é isso:
Eu nunca invejei cultura,
nem posição, nem dinheiro.
Se invejar for pecado,
me perdoe, Deus verdadeiro,
que eu sempre gostei da vida
e da profissão de vaqueiro.
R: Isso é uma toada porque ela foi escrita por Pedro Bandeira, em 1980.
P: E a gente chama de toada escrita?
R: Isso. Uma letra comum, uma composição de alguém, que eu posso cantar ela em aboio. Mas o aboiador não deve ficar cantando só coisa decorada. Tem missas de vaqueiro que eu frequento há 20 anos. Então, se eu cantar um verso esse ano lá, e no próximo ano eu cantar o mesmo, eles vão perceber. Entendeu? Eu tenho a responsabilidade de nem decorar isso daí, de deixar pra lá, descartar.
P: A sextilha inteira, não; Mas às vezes os versos, sabe, você nota que às vezes a pessoa Era uma carta da manga, um verso já preparado, né? Como é que se chama isso?
R: Depende. Depende muito da situação em que você está aqui, e isso pode acontecer, né? De fato, isso é chamado de aproveitamento, que eu posso me aproveitar daquilo que é bom. Entendeu? Eu já estive em ambiente que o rapaz chegou lá e ele não me conhecia, era outro poeta que era contratado, e ele remendou um verso, que séculos atrás eu tinha feito em um local, e eu nem lembrava mais. Quando ele disse o contexto da frase, eu cheguei, eu disse “oxente”. Mas aí, de boa.
P: Mas e quando você pega de você mesmo? Às vezes você está no processo do improviso, aí não vem um verso na hora, você pega um já feito, um que faz a rima combinar com o verso anterior, e aproveita, aproveita de si próprio. Isso acontece, né?
R: É, acontece. Olha, eu estive em um evento, que tinha um poeta lá que ele se apertou tanto, ele não teve onde enganchar o verso. O que é a linguagem da gente enganchar o verso? É, na sextilha, eu sigo com segunda, quarta e sexta. Necessariamente, não precisa primeira e terceira e quinta estarem juntas, mas é necessário que segunda, quarta e sexta estejam juntas, os versos, que eles estejam juntos. E o poeta estava fazendo o verso do chocalho, e ele ficou caçando onde ele ia fechar. Isso eu achei bem interessante, porque Chico Justino viu que ele não ia conseguir fechar, foi lá e encaixou. Eu lembro até do verso que ele disse:
O vaqueiro traz o chocalho
Que anda na cela amarrado
Ele sai de manhãzinha
Para o campo fechado
R: Aí ele parou, não conseguiu a outra frase. Aí Chico Justino foi e disse:
Com a marra bem tratada
Para botar no seu gado
R: E fechou, porque senão ele ia matar o verso final e não ia ser interessante. Eu nunca tinha visto isso; do nada, o outro poeta entrou. Aí depois, eu conversando com o Chico, ele disse: "Não, se eu não tivesse enganchado, não ia sair, e ia ficar chato pra ele."
P: Há alguns modos também, em algumas toadas, como o martelo agalopado no repente?
R: É, mas aí não é de responsabilidade do aboiador.
P: Não é típico dele.
R: Não. Isso daí é pra os cantadores.
P: Aquele mote “Quem tiver pena da vida não bote cavalo em gado"
R: Isso é de violeiro.
P: Ah, Isso é de violeiro, repentista, não é de aboiador.
R: Não é pra aboiador. Mas o aboiador faz. Ele tá na farra ali, ele faz. Esses motos aí você precisa de um tempo pra você se assegurar, porque é totalmente diferente da sextilha. Ele vai ter aí dez linhas e você vai ter que dar de conta dele no final. E aí o aboiador muitas vezes não tem esse conteúdo.
P: E também não tem a forma automática na cabeça…
R: Já o cantador de viola...
ABOIO E DISPARADA - ARMANDO LÔBO
PROPOSTA DE OBRA MUSICAL CONTEMPORÂNEA INSPIRADA NO ABOIO
A partitura que segue é uma proposta de utilização da poética espacial do aboio para criação de obras novas. A ideia estrutural da peça baseia-se na dilatação temporal e intervalar, produzindo uma sensação de vastidão. A partir de um cluster (agregado de notas afastadas por semitom), os instrumentos vão se expandindo intervalar e timbristicamente em um movimento lento até atingirem um acorde feito com a série harmônica. A polaridade entre caos (cluster) e série harmônica faz uma analogia da criação do cosmo natural, explorado pelo canto do vaqueiro: só existe aboio porque existe natureza, espaço natural. Relevante registrar a migração do canto religioso islâmico até o cantar laborial e espiritual dos vaqueiros nordestinos.
A segunda parte da obra utiliza modos típicos da música do sertão e possui rítmica bem marcada. Explicitamente, a estrutura da peça estabelece o contraste entre tempo rubato (primeira parte) e tempo medido (segunda parte), de certa forma refletindo o esquema presente no aboio hodierno, com a passagem do "esparramado" aboio de introdução à toada metrificada e ritmada.
"English version available.Please write us at armando.lobo@ufpe.br"
Ficha técnica:
Armando Lôbo - pesquisador principal
Victor Luiz - pesquisador assistente e fotografia
Manassés Bispo - direção de produção
Luciana Nadalutti - assistente de produção e tradutora
Helena Câncio - consultoria
INCENTIVO:
